Rita Levi-Montalcini

(Turim, 22 de abril de 1909 — Roma, 30 de dezembro de 2012 )

imageA69A Dra. Rita Levi recebeu o Prêmio Nobel de Medicina  quando tinha 77 !!!
 
 Rita Levi Montalcini, nasceu em Turím, Itália em 1909 e obteve o título de Medicina na especialidade de Neurocirurgia. 

A Dra. Rita e suas irmãs Paula e Nina tiveram uma infância feliz.

Paula seguiu a carreira artística e a irmã mais velha, Nina, casou-se e foi dona de casa a tempo inteiro. Rita refugiou-se na leitura. Leu Virginia Woolf e Selma Lagerlöf. 

Frequentou a Universidade de Turim por seis anos. Mais tarde recordaria a sensação estranha que teve a primeira vez que entrou num Instituto de Anatomia. Havia mais cinco alunas no seu curso. Rita tinha de estudar os cadáveres e perscrutar os tecidos através do microscópio. Levou o seu curso de Medicina muito a sério e depois optou pela área da investigação científica. Pesquisou as células e suas mutações, bem como os nervos sensoriais.  

Por causa de sua ascendência judia se viu obrigada a deixar a Itália um pouco antes do começo da II Guerra Mundial.  Emigrou para os Estados Unidos onde trabalhou no Laboratório Victor Hambueger do Instituto de Zoologia da Universidade de Washington. 

Na América continuou os estudos sobre o sistema nervoso e junto com Stanley Cohen chegou à descoberta de uma proteína que regula o crescimento dos tecidos, a que foi dado o nome de Nerve Grrowth Factor (NGF). Por isto, obtiveram no ano 1986 o Prêmio Nobel de Fisiologia.

Deixou várias obras na área da neurologia. Em 1999, na passagem dos seus 90 anos, organizou em Roma um simpósio científico. Tem dupla nacionalidade. Italiana e norte-americana. 

Hoje, com 97 anos tem uma vida hiper-ativa e é presidente honorária da Associação Italiana de Esclerose Múltipla. 

Entrevista realizada no dia 22/12/2005

– Como vai celebrar seus 100 anos?
-Ah, não sei se viverei até lá, e, além disso, não gosto de celebrações. No que eu estou interessada e gosto é do que faço cada dia.!

-E  o que você faz?
-Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas africanas para que estudem e prosperem … elas e seus países.  E continuo investigando, continuo pensando.

-E como está seu cérebro?
-Igual quando tinha 20 anos!  Não noto diferença em ilusões nem  em capacidade.  Amanhã voo para um congresso médico. 

– Mas terá algum limite genético ?
– Não. Meu cérebro vai ter um século…., mas não conhece a senilidade. O corpo se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro! 

-Como você faz isso?
– Possuímos grande plasticidade neural:  ainda quando morrem neurônios, os que restam se reorganizam para manter as mesmas funções, mas para isso é conveniente estimulá-los! 

-Ajude-me a fazê-lo.
-Mantenha seu cérebro com ilusões, ativo, faz ele trabalhar e ele nunca se degenera.

-E viverei mais anos?
-Viverá melhor os anos que vive, é isso o interessante.  A chave é manter curiosidades, empenho, ter paixões…. 

-A sua foi a investigação científica…
-Sim e segue sendo.

-Descobriu como crescem e se renovam as células do sistema nervoso…
-Sim, em 1942:  dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, fator do crescimento nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas, até que foi reconhecida sua validade e  em 1986, me deram o prêmio por isso.

-Como foi que uma garota italiana dos anos vinte converteu-se em neurocientista?
-Desde menina tive o empenho de estudar.  Meu pai queria me casar bem, que fosse uma boa esposa, boa mãe… E eu não quis.  Fui firme e confessei que queria estudar. 

-Seu pai ficou magoado?
-Sim, mas eu não tive uma infância feliz: sentia-me feia, tonta e pouca coisa…  Meus irmãos maiores eram muito brilhantes e eu me sentia tão inferior…

-Vejo que isso foi um estímulo… 
– Meu estimulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava em África para ajudar com a lepra.  Desejava ajudar aos que sofrem, isso era  meu grande sonho…! 

-E você tem feito…, com sua ciência. 
– E, hoje, ajudando as meninas da África para que estudem.  Lutamos contra a enfermidade,  a opressão da mulher nos países islâmicos por exemplo, além de outras coisas…!

– A religião freia o desenvolvimento cognitivo? 
-A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem, afastando-a do desenvolvimento cognitivo, mas algumas religiões estão tentando  corrigir essa posição.

-Existem diferencias entre os cérebros do homem e da mulher? 
– Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções, vinculadas  ao sistema endócrino.  Mas  quanto às funções cognitivas, não tem diferença alguma. 

-Por que ainda existem poucas cientistas?
– Não é assim!  Muitos descobrimentos científicos atribuídos a homens, realmente foram feitos por suas irmãs, esposas e filhas. 

-É verdade?
– A inteligência feminina não era admitida e era deixada na sombra.  Hoje, felizmente, tem mais mulheres que homens na investigação científica: as herdeiras de Hipatia!

– A sábia Alexandrina do século IV… 
– Já não vamos acabar assassinadas nas ruas pelos monges cristãos misóginos, como ela.  Claro, o mundo tem melhorado algo… 

-Ninguém tem tentado assassinar a você…
– Durante o fascismo, Mussolini quis imitar o Hitler na perseguição aos judeus…, e tive que me ocultar por um tempo.  Mas não deixei de investigar:  tinha meu laboratório em meu quarto… E descobri a apoptose, que é a morte programada das células! 

-Por que tem uma alta porcentagem de judeus entre cientistas  e intelectuais?
– A exclusão estimula entre os judeus os trabalhos intelectivos e intelectuais:  podem proibir tudo, mas não que pensem!  E é verdade que tem muitos judeus entre os prêmios Nobel… 

-Como você explica a loucura nazista?
– Hitler e Mussolini souberam como falar ao povo, onde sempre prevalece o cérebro emocional por cima do neocortical, o intelectual.  Conduziram emoções, não razões! 

– Isto está acontecendo  agora?
– Porque você acha que em muitas escolas nos Estados Unidos é ensinado o creacionismo e não o evolucionismo?

-A ideologia é emoção, é sem razão?
– A razão é filha da imperfeição.  Nos invertebrados tudo está programado: são perfeitos.  Nós não.  E, ao sermos imperfeitos, temos recorrido à razão, aos valores éticos:  discernir entre o bem e o mal é o mais alto grau da evolução darwiniana! 

-Você nunca se casou ou teve filhos?
– Não.  Entrei no campo do sistema nervoso e fiquei tão fascinada pela sua beleza que  decidi dedicar todo meu tempo, minha vida!

– Lograremos um dia curar o Alzheimer, o Parkinson, a demência senil? 
– Curar…  O que vamos lograr será frear, atrasar, minimizar todas essas enfermidades. 

– Qual é hoje seu grande sonho?
– Que um dia logremos utilizar ao máximo a capacidade cognitiva de nossos cérebros.

– Quando deixou de sentir se feia?
– Ainda estou consciente de minhas limitações!

-Que tem sido o melhor da sua vida?
-Ajudar aos demais.

-O que você faria hoje se tivesse 20 anos?
-Mas  eu estou fazendo!!!!  

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