Lendas e Histórias

O Barão de Alfenas e os Caminhos de São Thomé das Letras

Origem da cidade:

A origem de São Thomé das Letras, está cercada de muitas lendas.
baalfAntigamente São Thomé das Letras, era conhecida como Serra das Letras, antigo caminho para as lavras de Minas Gerais.  Haja vista que o ilustre Dr. Carlos de Martins, assim pensava, e em carta dirigida ao Instituto de História e Geografia, ele se expressa nos seguintes termos: “… referindo-se ao general Cunha Mattos, um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, assim se manifesta: ” Não reppelio elle a idéia da existência de letreiros de caracteres desconhecidos no Brazil, e referindo-se à tradição das inscrições da Serra das Letras, em Minas Gerais, diz no seu itinerário do Rio de Janeiro ao Pará: Eu não vi esses caracteres, e estou persuadido que são dentrites; posto que não se pode negar a existência de hieróglifos de um povo antiquíssimo em vários logares do Brazil, assim como não me atrevo a negar a existência de um apóstolo dos antigos legisladores, que introduziram um culto religioso muito philosóphico no México, Guatemala e Nova Granada, como testificaram os maravilhosos e estupendos monumentos que, há poucos annos a esta parte tem encontrado.” (Inscrições e Tradições da América Pré-Histórica, especialmente do Brazil”, por Bernardo da Silva Ramos, página 107 – segundo volume).

Esta gruta fica ao lado da Igreja Matriz e foi o local responsável pela origem do nome da cidade.
Esta narrativa me foi feita há uns trinta anos atrás, por um membro da família Junqueira, que há pouco tempo veio a falecer e que de maneira alguma quis ser citado.

Conta o seguinte: “Em meados do século XVIII, João Francisco Junqueira, patriarca da família Junqueira no Brasil e proprietário de uma grande fazenda (a ‘Campo Alegre’), possuía numerosos escravos dos quais João Antão era seu escravo predileto, muito dedicado aos familiares de João Francisco.  Era aquele escravo que fazia os trabalhos pesados dentro da fazenda.

Viviam também naquela fazenda duas de suas irmãs, Anna Cândida e uma outra a qual não se lembrava do nome.
Conta que João Antão, às escondidas, mantinha um romance com essa tal de Anna, que já era de meia idade.  João Francisco Junqueira, foi informado por uma escrava, ciumenta daquele colóquio amoroso, o que na época era impossível; e mandou o capataz matar João Antão.  Anna que estava em uma das dependências da casa, ouviu a ordem e rapidamente mandou avisar seu amado do perigo que o ameaçava, e lhe aconselhava a fugir. E assim ele fez, vindo refugiar-se na gruta ao lado da qual foi construída a Igreja Matriz.  Muitos anos se passaram, quando certo dia apareceu a João Antão um senhor bem vestido e de maneiras finas e que com ele uma grande amizade criou.

Depois de João Antão lhe ter contado o porquê de sua fuga, o personagem escreveu uma carta e lhe entregou dizendo: “Entregue esta carta ao seu amo, que ele te perdoará.”  Assim o escravo fez.  Ao chegar à fazenda,  foi reconhecido e preso, sendo levado à presença do fazendeiro.  Mas quando João Francisco Junqueira leu a carta, ficou impressionado, pois escrever bem naquela época era uma coisa muito difícil, principalmente um português clássico.  Formou-se uma comitiva que juntamente com o escravo vieram até a gruta, que ficava distante da fazenda uns trinta quilômetros. Quando chegaram na gruta não havia ninguém, apenas em um canto da gruta uma belíssima imagem de São Thomé apóstolo, esculpida em madeira.


Na entrada da gruta existem umas inscrições deixadas pelos índios Cataguases, que o povo chamava de letras e com o achado da imagem, deu origem ao nome de São Thomé das Letras.  O primeiro povo a habitar a região, ao que se sabe, foram os índios Cataguases.  A palavra ‘cataguases’ derivou da palavra ‘catuá’ que significa “gente boa”.  Os últimos chefes indígenas da taba dos Cataguases, se chamavam Itajibaçú, “braço de pedra rija”. e seu filho de nome ‘Jaguariuna’ que deixou descendência a que pertencia a respeitável matrona Sra. Delfina Constança de Magalhães, esposa do alferes, Joaquim Nogueira de Sá, que foi senhor do Rego D’água e do Taboão em Baependi, sul de Minas Gerais.  Os índios Cataguases, chamavam São Thomé das Letras, de “Mpaipendí” que queria significar: “caminhos dependurados”.  Afonso d´ Escragnolle Taunay, fundador de Taubaté – São Paulo, em suas memórias diz que a Entrada de Bandeira, chefiada por Jaques Felix e Fernão Dias Paes, em 1691 passou por esta região; partindo de São José dos Campos, galgando a Mantiqueira, rumo a Pouso Alto e Baependi, atravessando o Angahy, o rio Grande etc..

 

BARÃO DE ALFENAS – GABRIEL FRANCISCO JUNQUEIRA

Gabriel Francisco Junqueira , Barão de Alfenas , grande insentivador do MangalargaA notícia que se tem na memória a respeito da fundação de São Thomé das Letras, é que esta cidade nos primeiros tempos era conhecida como Serra das Letras, antigo caminho para as lavras de Minas Gerais.
O fundador, foi João Francisco Junqueira, que nasceu em Portugal, arcebispado de Braga e se radicou definitivamente na Fazenda Campo Alegre, ali viveu por muito tempo.  Casou-se com Helena Maria do Espírito Santo, faleceu em 1799, sendo enterrado debaixo do altar da igreja matriz de São Thomé das Letras.  Do seu casamento nasceram 11 filhos: Helena Primeira e Helena Segunda (gêmeas) que faleceram ainda em tenra idade, Francisco e Mariana, esta última faleceu ainda menina. O primeiro João Francisco Filho ( capitão), que herdou a Fazenda do Favacho.  O segundo foi Francisco Antônio Junqueira, que foi padre e herdou a Fazenda do Jardim.  A terceira foi Maria Francisca da Encarnação Junqueira, que herdou a Fazenda Santo Inácio.  O quarto foi José Francisco Junqueira, que herdou a Fazenda da Bela Cruz.  A quinta foi Ana Cândida de Jesus.  A sexta Genoveva Junqueira e o sétimo Gabriel Francisco Junqueira, que herdou a sede da Fazenda Campo Alegre.  Gabriel Francisco Junqueira era um autodidata e possuía uma boa cultura, andava impecavelmente bem vestido, e muito bem barbeado, e com a sua fulgurante inteligência e ideais avançados, por influência política de seu pai, tornou-se chefe de um prestigioso grupo político.


A 11 de julho de 1808, casou-se com Ignácia Constança de Andrade, e com ela teve uma porção de filhos.

Na grande fazenda que herdara de seu pai, passou a maior parte de sua vida, educando os filhos que foram: Helena – Francisco Gabriel – Anna – Antônio Gabriel – Mariana – Maria Rita – Rita de Cássia – Joaquim Tiburçio e João Procópio.
O Sete de Abril, é uma data que devia ser comemorada aqui em São Thomé das Letras, pois foi quando os brasileiros desiludidos com a atitude do Imperador D. Pedro I, iniciaram uma campanha ati-monárquica e liberal, e foi quando a figura de Gabriel Francisco Junqueira, entrou pelos anais da nossa história.  Na época da candidatura para deputado, D. Pedro I veio até Minas Gerais, para lançar a candidatura de José Antônio da Silva Maia, que era ministro e seria candidato da situação governamental, a deputado.  Foi escolhido para enfrentar Maia, Gabriel Francisco Junqueira.

A vitória de Gabriel Francisco Junqueira em 1831, foi um golpe certeiro no prestígio de D. Pedro I..  Em Janeiro de 1831, D. Pedro I, partiu para Minas Gerais, na esperança de reprimir as idéias liberais, querendo também confirmar seu prestígio pessoal.
Com seu grito no Ipiranga, ele consegui atrair muitos amantes da liberdade, mas com a brusca dissolução da Assembléia em 1833,  D.Pedro I, conseguiu apenas revoltar todos aqueles que o havia apoiado e principalmente os de tendências liberais.


Quando D. Pedro I, notou que haviam hostilizado aqueles que muito nele acreditavam, rapidamente procurou acalmar o Povo Brasileiro, elaborando uma constituição liberal.  Mais tarde, ele mesmo desrespeitou o que tinha criado, deixando de lado o poder legislativo e governando apenas auxiliado pelos ministros de sua livre escolha.  A oposição crescia e logo predominou.


A enérgica atuação de Gabriel Francisco Junqueira prevaleceu na Assembléia, combatendo o Imperador pelas suas arbitrariedades e de seus ministros em virtude da grave crise que atravessava o país.  Pois D.Pedro I, não conseguia coordenar politicamente a nação.


A vitória de Gabriel Francisco Junqueira, foi esmagadora, reparem o resultado: na cidade de Ouro Preto, Gabriel teve 29 votos e Maia, 5 votos.  Em Queluz, Gabriel teve 41 votos e Maia 3 votos.  Em Barbacena Gabriel teve 41 votos e Maia 3 votos.  Em São João del Rey, Gabriel teve 33 votos e Maia O voto.  Em Campanha, Gabriel teve 106 votos e Maia, 0 voto.  Em Baependi, Gabriel teve 40 votos e Maia 1 voto.


Depois desta apuração, D. Pedro I, decepcionado com seu prestígio, e muito preocupado, partiu para o Rio de Janeiro, na firme proposição de abdicar ao trono em favor de sua irmã.  Foi isso que realmente aconteceu.

A revolução restauradora em Ouro Preto, em março de 1833, depondo o governo Melo de Souza e seu vice Bernardo Pereira de Vasconcelos, além do deputado Ferreira de Melo, encontrou séria resistência por parte dos liberais, de um modo muito especial em Baependi, onde Gabriel Francisco Junqueira, era um dos baluartes do liberalismo nascente.


Neste ano de 1833, as ‘bruxas estavam soltas’, ocorrendo sérias revoltas dos escravos, que por pouco não dizimava a família Junqueira.


Estando Gabriel Francisco Junqueira na corte, ocupado com suas atividades políticas, deixou seu filho Gabriel, tomando conta da Fazenda Campo Alegre.

Gabriel Filho, foi até a lavoura onde os escravos trabalhavam. Lá chegando, ao apear do cavalo, foi morto a enxadadas e foiçadas pelos escravos revoltosos que deixaram o corpo no local do crime, todo mutilado e partiram em direção à Fazenda Campo Alegre, que ficava um pouco além do local.  Mas a família foi avisada por um escravo, fiel ao seu amo, fugindo a tempo, escapando do perigo que a ameaçava.


Na Fazenda Bela Cruz, morava José Junqueira, irmão de Gabriel Francisco Junqueira, que era cego e idoso.  O massacre ali foi quase completo, o Velho foi crucificado pelos escravos revoltosos, escapando somente sua neta que inocentemente brincava debaixo de uma roseira e também um filho seu que estudava num colégio interno em Lavras.


Juntando com os escravos da dita fazenda, o bando partiu dali para a Fazenda do Jardim, que era de propriedade de um irmão de Gabriel.

Lá chegando o bando foi recebido a bala. Felizmente tinha sidos avisados a tempo . Os escravos mortos, foram decapitados e suas cabeças colocadas nos moirões da estrada, com a finalidade de intimidá-los.

 

Gabriel Francisco Junqueira foi avisado da tragédia que quase dizimou sua família inteira; retornou rapidamente do Rio de Janeiro, indo direto para a fazenda e lá permanecendo, temeroso de outras tragédias, não mais comparecendo à Assembléia. Dizem que se tem provas em São João Del Rey, que esta revolta dos escravos foi incentivada pelos facciosos políticos.

 

Nos anos 34 e 37, foi eleito novamente, mas sua atuação durou apenas um ano, sendo substituido pelo Desembargador Manoel Ignácio de Mello.  Desse período em diante sua atuação pública se restringiu a Província de Minas Gerais.  Isto foi até a Revolução de 1842, em que participou como um dos principais chefes sul mineiro – ‘Coluna Junqueira’.

 

REVOLUÇÃO DE 1842

Em 20 de Junho de 1842, Gabriel Francisco Junqueira ofereceu ao Presidente interino de São João Del Rey – M.G., Sr. José Feliciano Pinto Coelho da Cunha, que estaria de prontidão em São Thomé das Letras, para marcharem para qualquer ponto onde necessário fosse, com 900 homens para sustentar sua autoridade. Em carta dirigida a Gabriel Francisco Junqueira o Sr. José Feliciano, aceita e lisonjeia Gabriel e seus companheiros.


Na Fazenda Campo Alegre, que pertencia a Gabriel Francisco Junqueira, começaram a chegar oposicionistas, correligionários políticos, não só de Baependi, mas também de outros lugares e em pouco tempo Gabriel Francisco Junqueira já contava com 1.300 homens armados sob seu comando. Dos 42 municípios em que se dividia Minas Gerais, em 1842, quinze Câmaras Municipais colocaram-se ao lado dos revolucionários.

Depois da derrota dos revolucionários, grandes saques aconteceram em suas fazendas.  Gabriel Francisco Junqueira, foi preso e remetido a corte, e duas vezes processado, se bem que foi absolvido do primeiro processo por via de recursos.


Em 14 de Março de 1844, foi expedido, um decreto número 342 que anistiava todos os revolucionários.  Assim dizia o decreto: Artigo único. –  “Ficão Annistiados todos os crimes politicos commetidos em anno de 1842 nas provincias de São Paulo e Minas Gerais, em que perpetuo silencio os processos que por motivo delles se tenhão instaurado.


Manoel Alves Branco, conselheiro d’Estado, ministro e secretario d’Estado encarregado interinamente dos negocios da Justiça, o tenha assim atendido e faça executar. Palacio do Rio de Janeiro 14 de Março de 1844, visesimo terceiro da Independencia e do Imperio.


Com rubrica de S. M. o Imperador. – Manoel Alves Branco.”


Apesar de revolucionário, em 1842, Gabriel Francisco Junqueira, recebeu em 1848, já completamente cego, o título de Barão de Alfenas. Faleceu em 1869 e, como seu pai, foi enterrado debaixo do altar da Igreja Matriz de São Thomé das Letras.

 

TÍTULO DE BARÃO DE ALFENAS

CONCEDIDO A GABRIEL FRANCISCO JUNQUEIRA

Dom Pedro II por graças de Deos unanimi aclamação dos povos, Imperador constitucioinal, e defensor perpétuo do Brasil, faço saber aos que esta carta virem.
Que tomado em consideração os merecimentos e serviços de Gabriel Francisco Junqueira: Hei por bem fazer-lhe mercê, em sua vida, do título de Barão de Alfenas.


E quero e mando que o dito Gabriel Francisco Junqueira daqui em diante se chame Barão de Alfenas, e que com o referido título goze de todas as honras, previlégios, insensões, liberdade e franquezas que usam os Barões de que direitos lhes pertencem.


E por firmezas de tudo que há, lhe mandei dar esta carta, por mim assignada, passada pela chancelaria, e sellada com o sello pendente das armas imperiais.


Pagou duzentos mil réis de novos e velhos direitos como constou no respectivos conhecimento em forma.


Dada do Palácio do do Rio de Janeiro em onze de setembro de mil oitocentos e cinquüenta, vigésimo nono da independência e do império. ( Assinado D. Pedro II )
Visconde de Monte Alegre.

 

Carta pela qual Vossa Magestade Imperial há por bem fazer mercê a Gabriel Francisco Junqueira do título de Barão de Alfenas, em sua vida, na forma acima assignada.”


( Pesquisa: Revolução de 1842 – Cônego Marinho).

Texto: Pedigri de Raça – Mangalarga

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