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Cavalheiros da Incerteza – De Olho na Pesquisa

Comparative“O encanto do conhecimento seria muito pequeno se, em seu caminho, não tivesse de vencer tanto pudor.”

Friedrich Nietzsche em Além do Bem e do Mal

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Num artigo anterior sustentamos que o filósofo Sócrates, nascido em 469 AC e condenado a morte pelos atenienses em 399 AC, foi o primeiro profissional de pesquisas de mercado da história.

 

Conta-nos seu mais conhecido discípulo, Platão, que Sócrates ao ser informado que a sacerdotisa de Apolo havia enunciado ser ele o mais sábio de todos os homens, nosso filósofo resolveu pôr a prova esta afirmação divina.

 

Ele então saiu pela pólis questionando cidadãos em pontos de fluxo, do Partenon ao Templo de Zeus, sobre vários assuntos de escopo ético moral por meio de um método chamado Elenchos (refutação), com o qual fazia os entrevistados se atrapalharem e caírem em contradições.

 

Pôde assim, ao fim deste campo, concluir que talvez fosse mesmo o mais sábio de todos os homens, pois enquanto ele próprio admitia nada saber, todos os entrevistados sabiam de algumas coisas, mas não sabiam de muitas e muitas outras e o que é pior, sobre tudo aquilo que não sabiam fingiam saber até o limite do ridículo. “Só sei que nada sei”, diria-nos sarcasticamente Sócrates.

 

Para ele a dúvida era a mais elevada forma de conhecimento. Dúvida?

 

De sua morte até o século XVI, poucas coisas aconteceram no campo do conhecimento, da primeira violenta experiência globalizante, outras continuam em curso, sob liderança de Alexandre, o Grande – que foi tutelado por Aristóteles, antigo discípulo de Platão – uma monumental biblioteca, Império Romano e o fortalecimento do Cristianismo, filosofia escolástica (cuja verdade só era verdade se confirmasse a existência de Deus), fogueiras de homens cientistas e mulheres feministas, muitos ratos, pestes, profetas, dogmas, certezas e… Nicolau Copérnico! E nós deixamos de ser os queridinhos do cosmos!

 

Quase um século depois da publicação do modelo heliocêntrico em 1.543, coincidentemente no ano de sua morte, pois o astrônomo preferiu morrer aquecido numa cama ao invés de numa fogueira, um terceiro cavalheiro, René Descartes, publicava numa língua vulgar, o francês, o livro “Discurso do Método”, defendendo, entre outros absurdos, o uso público da razão e de que esta razão deveria estar acessível a todos, inclusive às mulheres, até então consideradas seres irracionais pelas certezas medievais.

 

E em 1637 damos conta de que o método cartesiano começa com o seguinte pressuposto: “… não aceitar jamais alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal: isto é, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e nada incluir em meus julgamentos senão o que se apresentasse de maneira tão clara e distinta a meu espírito que eu não tivesse nenhuma ocasião de colocá-lo em dúvida”. Dúvida?

 

Diferentemente de Sócrates, nosso questionador cavalheiro, Descartes considerava a dúvida sistemática um ponto de partida fundamental para, por meio de métodos racionais, atingirmos a verdade.

 

Esta teoria inspirou o Iluminismo e posteriormente um tímido biólogo, que passava a maior parte do tempo no jardim de sua casa, na Inglaterra, e que em 1859 saiu deste jardim com uma estarrecedora teoria: não só não éramos o centro do universo, como também não éramos criações a imagem e semelhança divina, mas sim, uma entre tantas outras milhões de espécies animais, que se adaptavam ao meio, procriavam e se multiplicavam.

 

Charles Darwin foi ridicularizado pela puritana e burguesa sociedade vitoriana, certa de sua nobre origem social e espiritual e que em hipótese alguma se assemelhava aos animais do magnifico Zoológico de Bristol, onde podiam do lado de fora das jaulas jogar amendoins para os macacos que estavam do lado de dentro.

 

Mas a dúvida estava lançada e o pacífico cavalheiro não foi condenado a tomar cicuta, nem teve que esperar a proximidade da morte para publicar sua teoria, nem teve de viver isolado num quarto úmido fora da França, mas morreu em Londres, ao lado da família, na casa cercada pelo mesmo jardim que inspirou suas pesquisas.

 

Tempos evolutivos, que abriram as portas para um emergente cidadão austríaco de origem judaica, médico neurologista, que em 1899 publicaria mais um escandaloso livro chamado “A Interpretação dos Sonhos”. Pronto, não éramos o centro do universo, não éramos criações divinas, nem tampouco éramos regidos pela razão: “Não somos donos dentro de nossas próprias casas”, declarou posteriormente Doutor Sigmund Freud, o inventor do inconsciente e suas pulsões irracionais.

 

E trinta e um anos depois, o mesmo doutor abriria a obra prima “O Mal Estar na Civilização” dizendo-nos: “É difícil escapar à impressão de que em geral as pessoas usam medidas falsas, de que buscam poder, sucesso e riqueza para si mesmas e admiram aqueles que os têm, subestimando os autênticos valores da vida.”

 

Sim, as aparências e as certezas dos sentidos enganam, pelos seus compartilhamentos do irrelevante (seriam hits?), que nos dão uma sensação confortável de pertencimento a um risonho rebanho, como bálsamo para nossas dúvidas. E se a Luiza já voltou do Canadá, nós devemos voltar para o mundo corporativo.

 

E assim, o cavalheiro que abre este artigo com um de seus muitos aforismos se despede de nós, finalizando: “Quanto mais abstrata é a verdade que queres ensinar, tanto mais deves enganar os sentidos”.

E tua empresa? Abriu mão do “eu sei tudo, sempre fiz assim e sempre deu certo”? Que bom! Então agora escolham profissionais que poderão acolher suas dúvidas, pesquisar novas leituras e quem sabe ainda transformá-las em consistentes e promissores planos de ação.

 

 

 

newtonNewton Guimarães

Gerente de Inteligência de Mercado da GS&MD Gouvêa de Souza.

(newton.guimaraes@gsmd.com.br)

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