Eu Ouvi Crowley Cantando!

croVejam só em que festa de arromba, que outro dia eu fui parar. Presentes no local o rádio, a televisão, cinema, mil jornais, muita gente, confusão. Quase não consigo na entrada chegar, pois a multidão estava de amargar e eu ainda estava levando quatro garrafas de uísque para o coquetel da galera. Tudo aconteceu no Espaço Unibanco de Cinema. Logo que eu cheguei notei o Petrillo com um copo na mão. Enquanto o Rogério Sky-Lab fumava no jardim, o Rogério W.S. esbarrava em mim. Lá fora um corre-corre do brotos do lugar, era o Zé Ramalho que acabava de chegar. Enquanto o Marcelo Fróes me falava de músicas psicografadas, eu dei uma filmada geral e lá estavam o Bruno (do Biquini Cavadão), o Elias Nogueira, o Gustavo (da Cor do Som), a Tânia Nézio (Warner Records), Maria Angélica Seixas (tia do Raul Seixas), o produtor Nelson Pereira, o João Henrique Brito (da Sigla), a galera da Cabana Raul Seixas, a Sandra e a Maria Helena no maior tititi, o Vid e mais uma pá de gente que tinha vindo ver o vídeo “Raul Seixas também é Documento”, feito pela Kika Seixas em parceria com o Paulo Severo (nervosíssimo, aguardando a equipe do Fantástico!).

Mr.Crowley1Enquanto o Sérgio Péo me falava das suas memórias, sonhos e reflexões, eu vi a Kika conversando com o Bruno Wainer (da Lumière) e fui lá abraçá-la. Ela logo sacou da bolsa um presentinho, dizendo: “Toma, Tuninho, é todo seu! Pedi ao Vid, da Passion, que trouxesse da Inglaterra prá você!”. Eu fiquei chapado, bicho! Era um CD com a cara do Crowley, dizendo conter a própria voz da Grande Besta, que morreu em 1947 (O Sylvio Passos já tinha me dado um toque, mas ali estava a “coisa” na minha mão). Prá completar, chegou a turma do teatro, com a Maria Zilda, o Ricardo Petraglia e o Roberto Bontempo, que começou a falar do seu projeto de um longa metragem sobre o Raul Seixas. Aí me lembrei do som do meu carro e pensei em ouvir o CD imediatamente. Enquanto isso, acabou mais uma das sessões do vídeo documento em cartaz e eu saí pela porta no meio de uma galera entusiasmada e morrendo de rir com as coisas do Raulzito. Rua voluntários da Pátria, Botafogo, Rio, 16 abril 1997. Meia noite… Naquele trecho escuro da rua, sentei no carro e liguei o som. The great beast speaks! O CD “Aleister Crowley – The Great Beast Speaks” é muito mais importante do que se pode imaginar à primeira vista. Primeiro porque é o único registro conhecido da voz do famoso mago inglês que modificou completamente a visão da magia no mundo moderno. Além disso – como já citamos outras vezes -, Crowley influenciou profundamente toda a contracultura, o movimento Beat, a Sociedade Alternativa de Raul Seixas, os Beatles, Timothy Leary, Ozzy Osbourne e Cia Ltda. Segundo – aí é que é de arrepiar – alguns dos rituais recitados e cantados por Crowley neste CD são na língua enoquiana! E o CD é cor de ouro, por causa da “Golden Dawn” (“Aurora Dourada”). Quem me contou os detalhes foi o mago José Roberto Abraão.

Vocês não podem imaginar qual a origem da língua enoquiana! Quem a decodificou foi um cientista nascido em 1527 e morto em 1608, chamado John Dee. Além de outras coisas, ele foi o geógrafo idealizador de um meridiano de base para o planeta Terra, chamado até hoje de “Meridiano de Greenwich”. Tudo indica também que ele tenha servido de inspiração para William Shakespeare criar a personagem do “Próspero” na “Tempestade”. Era também um apaixonado por magia e feitiçaria, tendo passado uma boa parte da vida ganhando um dinheirinho fácil como astrólogo. Foi preso por conspiração contra a rainha Mary Tudor, mas libertado mais tarde pela rainha Elizabeth, da Inglaterra.

deeEm 1563, numa livraria de Anvers, John Dee encontrou um manuscrito da Steganographie, do abade Trithème. A Steganographie tratava também de rituais de magia e invocações de inteligências superiores. Pesquisando arduamente sobre o assunto, em 25 de maio de 1581, durante um ritual, apareceu-lhe um ser sobre-humano que ele chamou de “anjo”. Esse anjo entregou-lhe um espelho negro (que existe até hoje no museu britânico) e ensinou-o a utilizá-lo para fazer contatos com inteligências extraterrestres! John Dee começou então a comunicar-se com esses seres. E a partir dessas “conversas”, ele conseguiu organizar a primeira língua não humana que se tem conhecimento. Uma língua sintética, com um alfabeto e uma gramática próprias. No entanto, a maior parte do que ele anotou e os livros que preparou foram destruídos nas perseguições que sofreu. Principalmente quando sua casa foi incendiada por seus inimigos. Acusado de necromacia e outros “crimes” a partir de 1587, durante onze anos Dee foi perseguido cruelmente até morrer em 1608, completamente desacreditado e na miséria. Dos poucos textos que restam, alguns são tratados de uma matemática muito superior à que era conhecida no seu tempo. Alguns outros textos inéditos ainda se encontram no museu britânico.

John Dee chamou a essa língua de enoquiana em homenagem ao profeta bíblico Enoch (mas é importante que se saiba que não existe nenhum “livro de Enoch” escrito nos tempos em que o profeta viveu na face do planeta. Os diversos “Livros de Enoch” são muito “recentes”, com edições que datam de 1883 e 1896). A escolha do nome “linguagem enoquiana” por John Dee, se deve ao fato de que a tradição fala das viagens miraculosas do profeta Enoch a “outros planetas e outros universos”. E de certa forma ele estava repetindo essas viagens. E queria que qualquer pessoa pudesse realizá-las (o que seria o fim de muito fanatismo que existe por aí…).

macNo final do Século XIX, essa língua viria a ser recuperada por McGregor Mathers e se tornou a base da doutrina secreta da “Golden Dawn”. Nos rituais desta ordem existem os mantrans de acesso às trinta esferas do Universo. E neste CD Crowley – que foi admitido na Golden Dawn em 16 de janeiro de 1900 -, apresenta somente os mantrans de acesso à primeira e segunda esferas (“The Call of the First Aethyr” e “The Call of the Second Aethyr”. “Aethyr” significa “esfera”). A partir da Golden Dawn, Crowley fundaria a A.A. (“Argenteum Astrum” ou “Estrela de Prata”, ordem esotérica à qual viria a pertencer Raul Seixas, nos anos 70). E agora, nesta noite em homenagem a Raul Seixas e às vésperas do Século XXI, eu recebo em minhas mãos a voz de Crowley cantando mantrans na língua enoquiana de John Dee! Emocionado, eu cheguei a pensar “que pena que o Raul não tenha ouvido isso…”. Mas será que Raul Seixas – que conversava com os discos voadores – realmente não sabia de nada disso ? Por que será que Raul morreu tão sozinho ?!… Um arrepio me percorreu a espinha. O Rio é muito perigoso e estava ficando tudo muito escuro na Voluntários…Resolvi voltar prá festa, que continuava rolando no Espaço Unibanco…

De madrugada, quando eu já ia embora, ainda estava chegando gente: a Juçá, o Leonardo Rivera, a artista plástica Selma Sena, o Artur Xexéo, aquele advogado que é do grupo da Safira Estrela, o Luiz Nogueira (L.N. Comunicações), o Sylvio Passos (chegando de São Paulo), a antropóloga Mônica Buarque, o Johann com a turma da Sociedade Novo Aeon e o meu amigo João Paranaguá, que tinha ido dar uma repousadinha… Que onda… Que festa de arromba!…

Fim

Toninho Buda, 23 abril 1997

filipeta

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