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PREFÁCIO de Wilhelm Kenzler à edição brasileira do livro O TREINAMENTO AUTÓGENO de Johannes Heinrich SCHULTZ

J. H. SCHULTZ é filho de um pastor, professor de teologia protestante, da famosa Universidade de Gotinga, na Alemanha. Sua mãe – em contrapartida – descende de família de políticos e artistas da Suíça francesa. Resultou o pesquisador metódico, espírito disciplinado e sóbrio – como herança paterna – mas também o temperamento artístico, dotado de rica fantasia, hipersensível, capaz de surpreender no detalhe a nuance emocional, apto a entregar-se “in vivo” aos fenômenos vitais em sua integridade, antes de submetê-los ao escalpelo de uma análise racional – traços que nos fazem sentir a presença latina da progenitora.

Estes aspectos aparentemente paradoxais – em verdade complementares, serão reencontrados na essência e na estrutura de seu “O Treinamento Autógeno”, que eu tentaria descrever livremente como a metodização científica do processo de sentir, “vivenciar” todos os fenômenos internos e externos, físicos e psíquicos, da vida humana sob o controle integrador da consciência, ou seja, em termos psicanalíticos, integrar Id e Superego sob a égide do Ego.

Schultz foi colecionador de besouros na meninice; queria estudar Zoologia; tornou-se técnico em amestragem de cães e teve a equitação como esporte preferido. Seria fantasioso interpretar nestas atividades a energia libidinosa (o amor pelo mundo vivo dos animais) expressando-se de forma criadora e harmoniosa sob a regência do espírito científico que quer conhecer, controlar e educar para produzir e usufruir, de forma adequada à condição humana, de forma “bionômica”, como diria o próprio Schultz?!

Sua adolescência foi marcada por três grandes decepções: com os representantes da Religião (seu pai foi vítima de intriga política dentro da Igreja), com os representantes da ciência (seu pai faleceu prematuramente por comprovada falha médica) e com sua primeira grande paixão.

Foi a libertação destes objetos idealizados que abriu caminho ao espírito investigador que o levou sucessivamente a trabalhar em Fisiologia com o então mundialmente famoso MAX VERWORN em Gotinga, em Psicologia com WILLIAM STERN em Breslau e a estudar Filosofia com REINACH, (discípulo de Husserl) na procura de uma aproximação às respostas, às velhas e eternamente jovens e inquietantes interrogações sobre a essência da vida.

A Fisiologia é o ramo da Biologia dedicado à compreensão do funcionamento de um organismo, sendo responsável por desvendar todos os processos físicos e químicos envolvidos na manutenção da vida.

A importância desta fase de sua vida com VERWORN surge clara em sua própria descrição: “eu fiquei a vida toda um fisiólogo no sentido organísmico”. Aqui se estruturou o conceito unitário de vida humana, incluindo o psiquismo no campo da fisiologia: uma fisiologia biopsicológica, psicossomática ou melhor, “organísmica” como Schultz, com razão, prefere, no intuito de superar também a denominação, o conceito dualístico de interação causal entre soma e psique. Estes são aspectos de um mesmo e indivisível fenômeno que é a “vida humana”, ou seja, o “organismo” sensu lato.

Esta posição, aliada à da “bionomia”, pela qual exige que toda psicoterapia e psicologia médica deve ater-se às características fundamentais da vida (a vida se desenvolve por fases, que têm um ritmo e um plano inerente, uma ordem interior; a personalidade só pode ser apreendida como um todo; nunca nós lidamos só com uma função ou parte do outro; tudo que é vivo é processual, dinâmico, está em evolução constante, portanto não há qualidades ou características fixa num sentido absoluto; o organismo tem processos de auto regulação, de compensação, de reparação e cura que são a base indispensável de qualquer terapia que pretenda conduzir à autoafirmação dentro do princípio da realidade) Schultz a manteve e desenvolveu vida afora.

Vida rica de experiências interessantes, pois sua carreira é um verdadeiro passeio pelos clássicos da medicina alemã deste século. Entre seus mestres Schultz pode ainda enumerar nomes como STRÜMPELL, NEISSER (no tempo de seu apogeu – 1912), BONHOFFER e CZERNY. Fez dois anos de pesquisas imunoalérgicas com PAUL EHRLICH e foi assistente de OTTO BINSWANGER em Iena, onde acompanhou os trabalhos de BERGER que culminaram com a descoberta do EEG.

Durante a primeira guerra mundial foi diretor de um sanatório de neuróticos de guerra, que com a introdução da laborterapia ampliou de 500 para 2000 leitos, tornando-o o maior da Alemanha.

Em 1915 conquista a Livre-Docência de Psiquiatria, discorrendo, no tema de livre-escolha, sobre “Caminhos e finalidade da psicoterapia”, o que, seguramente, foi uma das primeiras docências no mundo com este tema.

Tanto na renomada clínica de Binswanger em Iena, onde ficou até 1920, quando se tornou Professor Extraordinário, como na chefia do famoso Sanatório Lahmann em Dresden, acostumou-se a atender potentados, nobres e monarcas de todos os rincões do mundo, que procuravam a Alemanha, então “Meca” de medicina mundial para tratamento; episódios pitorescos com personagens exóticos datam deste tempo e amenizam hoje suas conferências e cursos.

O trabalho em Sanatório não podia satisfazer ao psicoterapeuta; a universidade só agora começa a oferecer oportunidade aos psiquiatras-psicoterapeutas. Nesta conjuntura Schultz resolve, em 1924, instalar seu consultório em Berlim, que mantém e que o mantém até hoje. São mais de 40 anos.

Esta etapa costuma ser o fim da carreira no sentido do estudo, pesquisa, ensino com H. Schuitz-Hencke, posteriormente fundador da neopsicanálise.

Em 1926 apresenta o treinamento autógeno pela primeira vez à Sociedade Médica de Berlim. Em 1932 surge a 1ª edição do presente livro.

O renome que granjeou propiciou-lhe encontro com Sigmund Freud em Viena, para discutir com ele o método.

Schultz contou-me o episódio, que é uma contribuição ao conhecimento das duas personalidades: de pé no meio da sala, olhar penetrante, dedo em riste, Freud dirige-se a Schultz que acaba de entrar:- “O Senhor acha que cura os seus pacientes com seu método?” Entre perplexo e divertido, Schultz responde que “Absolutamente não; pretendo ajudar as forças sadias do organismo a se desenvolverem… etc.” Com um sorriso – como se tudo tivesse sido uma brincadeira – Freud amavelmente convidou seu visitante a sentar-se.

Já em 1909, numa de suas primeiras publicações, Schultz fizera um resumo crítico da obra de Freud, cuja fotocópia foi exibida na exposição comemorativa do 1º centenário de Freud em Nova Iorque, como “a primeira apreciação crítica objetiva – não emocional – da psicanálise”.

De 1936 a 1945 Schultz foi diretor do Instituto de Psicanálise de Berlim, fazendo-o sobreviver àqueles “difíceis tempos em que neurose, psicanálise e homossexualidade eram crimes comuns e semelhantes …”

Após a guerra produziu uma infinidade de artigos e uma dezena de livros sobre teoria de neuroses (propõe uma classificação em 4 categorias que diferem em profundidade, fator etiológico predominante, prognóstico terapêutico – que goza de muita aceitação nos meios psicoterapêuticos alemães), sobre bases bionômicas da psicoterapia, sobre “Amor, sexo, casamento” (dedicado a adolescentes), sobre hipnose médica e naturalmente sobre o treinamento autógeno. Tornou-se conferencista procuradíssimo; anualmente profere cursos para médicos em Berlim, Hamburgo e Lindau.

Publica e fala a todas as especialidades médicas e com especial dedicação ao clínico geral, ao médico de família, procurando educá-lo para uma compreensão organísmica do seu paciente e para uma terapia que atente aos princípios fundamentais da vida, que seja bionômica, quer seja ela um simples conselho, uma psicoterapia dinâmica, uma hipnose, o treinamento autógeno, ou uma técnica analítica de atuação sobre o inconsciente.

Ensina que não há propriamente uma grande e uma pequena psicoterapia, mas sim uma “boa e outra má”, aquela é qualquer técnica bem indicada e bem executada e esta é qualquer técnica mal escolhida ou realizada. É tão desajustada, “antibionômica” a receita de vitaminas para o neurótico depressivo como a psicanálise para a moça que tem uma banal reação depressiva por uma briga com namorado.

Esta incansável atividade valeu-lhe o renome indiscutível de maior batalhador pela “psicologização” do meio médico, na Alemanha. O mesmo sentido tem as revistas de que é editor. “Praxis der Psychotherapie” é a que maior popularidade alcançou.

Recentes e atualizadas são suas contribuições ap “Handbuch der Neurosenlehre und Psychotherapie”, (T’ratado de teoria de neuroses e psicoterapia)* que editou juntamente com Frankl e Gebsattel. São 5 volumes de 800 páginas, contendo contribuições de todas escolas psicoterapêuticas sobre todos os temas da especialidade e aspectos culturais, sociais, pedagógicos, filosóficos etc., correlatos.

Das muitas homenagens e honrarias que recebeu – que são particularmente significativas, pois não ocupa nenhum cargo oficial – duas o alegraram particularmente: 1ª- O Congresso Mundial de Psiquiatria de Montreal, em 1961, reservou todo um dia de seu temário para o “Treinamento Autógeno” e o convidou para presidir a sessão. 2ª- A Associação Médica de Berlim o elegeu “Presidente Honorário” – homenagem concedida, até então, exclusivamente a catedráticos de renome excepcional.

Estas duas homenagens, tradução do reconhecimento e da admiração tanto de psiquiatras como de clínicos, ilustram bem a verdadeira posição de Schultz e sua obra: a busca do homem integral, em equilíbrio organísmico entre suas esferas somática e psíquica, afirmando-se em harmonia “bionômica” com as condições externas da realidade física e sócio-cultural, prevenindo os extremismos unilaterais, quer organicistas, quer psicanalíticos, criando uma medicina de bases experimentais fisiológicas e psicológicas, de aplicação clínica eficiente e exequível, dentro de uma orientação filosófica em que um humanismo liberal é enriquecido por um pragmatismo científico de
um lado e por uma ética hipocrática de outro.

Para atingir e realizar esta posição, Schultz dedicou toda sua vida, em que já passou mais de 60 anos dentro da profissão… por enquanto.

Não vê nisto mais que sua natural função de ser humano; é o que se depreende do aforismo de Goethe com o qual encerra um seu recente ensaio autobiográfico: “Gott gab uns die Nüsse, öffnen müssen wir sie selbst” ou seja: “Deus nos deu as nozes; abri-Ias é nosso problema”.

Em outras palavras: “A vida é boa, para usufruí-la é preciso trabalhar”, lema que vamos encontrar no espírito do treinamento autógeno, em que a tranquilidade e a saúde resultam do trabalho concentrativo sistematizado.

A presente edição em português de “O Treinamento Autógeno” de J. H. Schultz, vem preencher uma das muitas lacunas da literatura médica brasileira, exatamente na época em que se observa um movimento multilateral de tentativas de integração psicossomática na Medicina mundial e mais recentemente na brasileira; realmente cresce a olhos vistos o interesse dos colegas pelos aspectos psicológicos da Medicina: a Higiene Mental é tema patrocinado pelo governo; os Institutos de Psicanálise não comportam o número dos candidatos; os cursos de hipnose têm grande frequência; as novas Faculdades já sentem como óbvia a necessidade de disciplinas ou cátedras de Psicologia Médica; a Associação Brasileira de Medicina Psicossomática acaba de ser fundada e promove sua primeira reunião nacional; o Congresso Latino-Americano de Psicoterapia de Grupo deste ano realizou-se em São Paulo; os estudantes de Medicina anualmente nos vêm solicitar cursos de treinamento autógeno e medicina psicossomática; os congressos de qastroenteroloçia e outras especialidades incluem temas como “relação médico-paciente” em seu programa e finalmente a Associação Brasileira de Escolas Médicas discutiu em seu último Congresso (1966) na Bahia o curriculum de Psicologia Médica, tentando ultrapassar as naturais e grandes resistências que este tema sempre tem suscitado. Creio que estamos – por tudo isto – no limiar de uma transformação: a Medicina, de bioquímica, de ultramicroscópica tornar-se-á psicológica; psicodinâmica, anímica talvez.

Seria outro unilateralismo, contrário à realidade da vida, mas talvez o perigo a correr para entrar na trilha da concepção integral, biopsico-social, organísmica, antropológica, todos nomes que no fim querem definir o que é indefinível: o humano.

Neste caminho, o treinamento autógeno terá, a meu ver, ao lado das técnicas psicoterápicas grupais, um lugar de particular importância prática, pois pode ser aprendido e ensinado em tempo e com esforço acessível à maioria dos médicos e pacientes, tem uma larga faixa de indicação (excetuam-se as psicoses e as neuroses graves, mas incluem-se todos aqueles sintomas devidos a distúrbios funcionais do organismo e como coadjuvante em praticamente todas as doenças), produz bons resultados médios, que se tornam ótimos na medida que a indicação e a execução são aprimoradas, conforme indica a literatura.

A literatura mundial confirma este diagnóstico; basta vermos a recente “International Edition – Autogenic Training – Correlations psychosomatics” editada por W. Luthe na Grune-Stratton, 1956, que reúne 50 autores de 14 países numa apresentação do estado atual da teoria e pesquisa, da aplicação clínica e das perspectivas
internacionais.

A nossa experiência com mais de 600 pacientes treinados em 40 cursos (aqui e na Alemanha) e com aproximadamente 200 médicos e acadêmicos (preparados em 5 cursos) alicerça nossa opinião de que o treinamento autógeno é um método que tem todas as condições para, num futuro não muito remoto, fazer parte do arsenal terapêutico de todo médico clínico, e particularmente deste, que não conseguirá por muito tempo mais iludir a si e à avalanche de seus pacientes portadores de distúrbios funcionais psicossomáticos, psiconeuróticos ou psicossociais com palavras amigas, com vitaminas, com tranquilizantes nem terá condições de enviar todos à psicoterapia especializada, a qual não é, obviamente, sempre necessária.

Além de sua aplicação clínico-psicoterápica em consultórios e hospitais, o método abre um mundo de perspectivas em todos os campos em que se visa um aperfeiçoamento do rendimento humano sadio; assim em autoeducação e autodomínio, seja como técnica básica de tranquilização, seja através de fórmulas intencionais individuais; assim em pedagogia (melhora de atenção, concentração, memória, disciplina interior e consequente rendimento); em esportes (maior rendimento por melhoria de concentração, aumento da tranquilidade, aprofundamento do repouso etc.); em artes (maior sensibilidade profunda para captar o fenômeno artístico, maior concentração para produzir, maior tranquilidade na apresentação – em palco, por exemplo); em psicologia do trabalho (aperfeiçoamento de quadros dirigentes) etc., enfim, em todo lugar onde esteja o homem tentando integrar suas instâncias para melhorar sua saúde, ou seja, aperfeiçoar sua interação receptiva e criativa com o mundo.

Esforço de integração e tentativa de melhoria também é esta edição, em que um tradutor e uma editora lançaram-se com capacidade e dedicação ao objetivo e o alcançaram plenamente, oferecendo uma edição bem cuidada, uma tradução que surpreende pela exatidão com que compreendeu e soube formular às vezes realmente sutis enunciações do texto estrangeiro. Creio que nada fica a dever – antes pelo contrário – às traduções já existentes para o inglês, francês e o espanhol.

A classe médica e os demais intelectuais interessados ficarão devendo a Cesário Morey Hossri e sua equipe o inestimável e, no que pudemos apreciar, bem sucedido esforço da difícil tradução à Editora Mestre Jou, o pioneirismo de lançar o assunto que entre nós ainda é – por enquanto – do futuro, ajudando-o a tornar-se do presente.

A mim coube a grata honra de apresentar os que trabalharam e recomendá-los vivamente.