HERMETO PASCHOAL
MÚSICA DO ASTRAL NA ARTE DO MAGO BRANCO
Por CARLOS ROQUE — Fotos: CRISTINA VILLARES
Natural de Arapiraca (Alagoas), pai de seis filhos, 45 anos de idade e 38 de iniciação musical, Hermeto Paschoal — autoproclamado “Mestre Mará” — é uma síntese viva da magia dos sons.
Depois de cinco ou seis álbuns (dois lançados nos EUA) e de uma expansão intuitiva da mente através da música, o mago dos sons compôs parcerias sofisticadas com músicos da Terra, inventou orquestras de sapos e animais e, como músico místico, fala de telepatia da mente em turbilhão.

SOM TOTAL E MAGIA BRANCA
De todas as formas existentes e conhecidas de arte, a música parece ser a forma de expressão que mais comporta e traz em si mesma a magia e o mistério da emoção imediata, forma mais
detectada pelas antenas mais sensíveis, capaz de tocar, de maneira mais aguda, os centros emocionais dos seres.
Hermeto Paschoal, considerado pela crítica especializada como um dos músicos mais criativos do mundo, é o que poderia ser chamado de o “mago dos sons”. Respira e exala música pelos
poros, toques, narinas, olhos, expressões.
Nos encontramos numa tarde em que chovia densamente, no Estúdio de Arte Fotográfica Preto & Branco, no coração de Sampa, alguns dias após a estreia, no Teatro da Universidade Católica,
do espetáculo “Brasil Universo”, onde Hermeto e sua banda, composta por magníficos e virtuosíssimos músicos, deram uma mostra da atual fase do inquietante e controvertido bruxo
hermetiano. Sandálias de couro, chapéu de palha estilo panamenho, enormes cabelos brancos puxados para trás, olhos semiescuros, bata cor de açafrão bordada aos ombros. Sua apresentação
lembra, à primeira vista, um personagem — em proporções humanas — extraído de O Livro das Fábulas, de Hermann Hesse.
Indubitavelmente, Hermeto é — naturalmente — como o Don Juan de Carlos Castañeda. Aos 45 anos de idade, natural de Lagoa da Canoa, município de Arapiraca, Alagoas, teve suas
primeiras experiências musicais aos sete anos de idade, quando abraçava-se à harmônica de oito baixos que seu pai, após tocá‑la, deixava sobre a cama.
Depois de uma breve familiarização com o instrumento, ele e seu irmão, José Neto, tocavam para seu pai ouvir. Desde então não parou mais. Tido como mestre por músicos do quilate de
John McLaughlin (ex-integrante do grupo Mahavishnu Orchestra e considerado pela crítica especializada como o guitarrista mais ágil do jazz) e pelo tecladista Chick Corea, Hermeto já
foi alvo de calorosos e arrebatadores elogios de Claude Nobs, organizador do Festival de Jazz de Montreux, que o considera um dos maiores jazzmen do mundo. Hermeto jamais estudou
conservatório. Autodidata de alma sensível, construiu, através de suas experiências, uma nova maneira de escrever música.
“Não sinto falta de instrumentos. Posso tocar piano apenas imaginando.”
Seu dizer é baixinho, pausado e cálido. Ele diz assim:
“A música acontece comigo de uma maneira toda minha de escrever música. É um trabalho que venho desenvolvendo ao longo de todos esses anos e que futuramente pretendo editar. Por não ter
tido professor eu criei uma nova maneira de escrever música. O meu professor chama-se Mundo. Esse é o meu professor. Eu acho que a música só é convencional quando a gente não cria. O
negócio não é as cores: tudo são cores! São como as cores; tudo cores. Eu toco como as pessoas. Então eu pego as minhas músicas e simplesmente jogo com elas. Eu conheço todos os
instrumentos e escrevo para sinfônica, para coro e para qualquer tipo de orquestra.”
“Um pedaço de pau tem a mesma importância do saxofone.”
Hermeto estabelece com a música uma relação cromática. Seu universo musical parece ser grávido de cores. Ele mesmo explica‑se:
“Da mesma maneira que um pintor pinta um quadro eu posso compor. Tudo isso porque eu já conheço os sons na mente. Posso tocar piano imaginando um piano. Eu não sinto falta de instrumentos.”
Ele não tem ideia de quantos instrumentos toca. Ao que se sabe, Hermeto é um multi‑instrumentista. Toca piano, órgão, harmônio, bateria, clarinetes, triângulos, violão, cavaquinho,
flautinhos, sax‑soprano, flautas, pedal de órgão, tamborim, surdo, saxofones, etc., faz dueto com sapos, grilos e pássaros; além dos instrumentos por ele inventados, como a bacia e as
garrafas d’água. Ele explica como vê um instrumento musical: “Quando eu pego um instrumento eu sinto que nunca é igual. Eu sinto como se fosse um outro instrumento. A mesma importância
que dou a um saxofone eu dou a um pedaço de pau. Porque com um pedaço de pau eu faço um som tão importante quanto o que faço num saxofone, piano ou qualquer outro instrumento.”
Paschoal diz que toda pessoa faz música. Mesmo sem o saber. Exemplifica esse conceito da seguinte maneira:
“Quando alguém pega uma panelinha, põe um ovo pra fritar… você já ouviu que som lindo é um ovo fritando? Pra mim todas as pessoas são percussionistas. Só que muitas são percussionistas
inconscientes. Exemplo: você tá na cozinha e escuta a pessoa dizer: ‘Ô Fulano, me traz aqui a colher de pau.’”
Para Hermeto, todos esses detalhes do cotidiano ganham conotações musicais. Assim sendo, ele insiste que a frase acima contém música e é uma pena que no texto seja impossível traduzir a
beleza com que Hermeto cantou: “Ô Fulano, me traz aqui a colher de pau.”
Usa a imaginação para criar sons e simplesmente os concebe, através dela. Instantaneamente. Ele diz assim: “Pra mim tudo é música e a música é tudo.” Trata-se de um artista do signo de
Câncer, filho da Lua, das águas, Mãe da Terra. Perguntado se acredita em Astrologia, responde: “Eu acredito em tudo, desde que seja feito com muita seriedade, estudo e muito respeito. Eu
acho a Astrologia uma coisa séria. Mas tem muita brincadeira nisso tudo. Como também muita brincadeira em cima da música.”
“Brincadeira”, aqui, tem o sentido de irresponsabilidade e consumismo maquinal caótico. A música habita o universo hermetiano de forma absolutamente intuitiva. Coisa de mago. Alquimista
de sons, um médium‑telepata em potencial integral e ativo. Se considera um receptador do universo. Verdadeiro radar de sonoridades. Sobre sua descendência diz assim:
“Minha descendência é de raça mundial. Minha mente anda tão rápida, numa velocidade tão vertiginosa, que eu não consigo distinguir a diferença de um lugar pra outro. Eu já perguntei para
os meus pais sobre isso, mas eles também não sabem. Acho que todo mundo é descendente de todo mundo.”
Casado, pai de seis filhos, um deles apresentou desejos de aprender música e Hermeto disse que lhe arrumaria um professor. Como resposta, ouviu do filho: “Meu professor tem que ser o senhor.”
Chamado carinhosamente pelo apelido de “Campeão”, ele é o personagem de um filme em curta‑metragem que leva no título seu nome e seu apelido: “Hermeto, o Campeão”. Essa fita, que
brevemente será lançada através de uma emissora de televisão brasileira, é uma sequência verdadeiramente maravilhosa onde Hermeto, tocando flauta na beira de um lago, estabelece uma
regência com uma orquestra de sapos que cantavam no mesmo tom emitido por seus instrumentos. Teve uma hora que, diante da sonoridade coletiva dos sapos, teve que dar tudo de si para que
a harmonia musical conseguida no início da experiência não se desfizesse, tamanha a variedade de ritmos e sons emitidos pelos sapos. Paschoal tem sensibilidade musical tão aguçada que
conseguiu distinguir entre todos os sapos “um que tinha a voz mais alta e sonora e que deveria ser o maestro”.
Hermeto trabalhou na Rádio Difusora de Caruaru (PE) e tocou na feira dessa mesma cidade além de percorrer por várias regiões do Nordeste; das caatingas às feiras populares. Mais tarde,
já em São Paulo, sentava nos degraus de acesso da Igreja da Consolação, à noite, e fazia um som. Tocou também muitas vezes nas boates paulistas. Suas aparições na televisão são um tipo
de show mesmo; ele encena seus espetáculos. E diz que as épocas dos festivais de música popular é que são realmente gloriosas, pois é durante os festivais que os produtores dão aos músicos
de qualidade espaço para mostrarem seus trabalhos.
Ele acha que o músico é um mágico. Mas faz questão de frisar: “Mas nem todo mundo é um músico. Porque há determinadas coisas que algumas pessoas não têm na música. Então é preciso que
esse dom seja lapidado, desenvolvido. Cada pessoa nasce com um dom específico. Esse negócio da gente querer agradar as pessoas, de dizer que todo mundo é inteligente, tem o mesmo nível…
acho errado. É claro que ninguém tem culpa, mas existem determinadas pessoas que assimilam as coisas com muita mais facilidade. Modéstia à parte, eu consigo mais.” Ele lembra uma passagem
muito interessante ocorrida em Berlim, durante um Festival no qual participou, onde fazia um número tocando flauta. Momentos antes do concerto flauta, me veio a ideia de uma coisa que eu
queria: peguei uma bengala e, transformei de repente numa flauta de bambu. Hermeto ainda ouve falar que na “terra de Beethoven” o público é muito exigente, mas, como sempre, achou que não
há diferença de público, seja europeu ou hindu. Ele tem um excelente conceito com qualquer teatro brasileiro.
O TELEPATA QUE VIAJA COM OS SONS NO PLANO ASTRAL
Vamos agora ouvir o desfecho dessa história através do próprio Hermeto:
“Aí eu pensei assim: ‘Quando eu for tocar não vai sair nada, nem uma nota’. Fiz uma pressão como se estivesse apavorado. Bicho, quando eu soprei e não saía nada eu ouvia o sussurro de
um público alemão que parecia um porção de abelhas, como a dizer assim: ‘Coitado, coitado do rapaz… que vexame’. Eu escutei tudo, não pelas palavras, mas pelas vibrações mentais que eu
captava das pessoas que estavam me vendo. Na verdade o aplauso não é importante. O que ocorreu é que eu sabia o que ia suceder a seguir. Quando eu entrei num clímax de desespero possível
na minha ideia e também pra efeito de um impactozinho normal, eu estiquei mais um pouco e de repente a flauta maior foi saindo; aos pouquinhos, a flauta de bambu. O teatro quase caiu. Na
hora me veio o pensamento de que aquilo era magia pura. Naquele momento eu agradeci ao Ser Maior, ao Infinito por ter me dado a ideia de me comunicar com o público de uma maneira tão mágica
e tão sublime e servir de introdução para a música que eu ia tocar. Então eu peguei a flauta de bambu, pus a flauta maior no chão, fiz um solo maravilhoso que arrasou com tudo.”
“A magia faz parte integrante não só do meu trabalho, mas também da sua própria vida. Ele conta uma segunda experiência transcendental ocorrida no Teatro Municipal de São Paulo:
‘Uma vez eu tocava piano num show e comecei, repentinamente, a ver uma porção de coisas. O que eu vou falar pode dar a impressão de que são coisas assombrosas, mas não são não. Eu via
aranhas, nuvens, negoção assim, tudo misturado, e eu vendo aquilo imediatamente fui levantado o piano comigo, tocando sem parar e o piano indo embora comigo e eu ainda embora com o piano,
até que eu passei do palco com o piano e caí lá embaixo, no chão. Foi uma sensação tão maravilhosa que não tem expressão que possa definir.’”
“MEU CHORO É INTERIOR. PARA MIM NÃO EXISTE A TRISTEZA”
Outra experiência transcendental ocorreria no mesmo teatro naquela mesma noite. “Enquanto eu tocava, falecia no Rio de Janeiro uma irmã minha. Eu senti isso na hora e parei o show. Isso
que eu vou contar não é tristeza não. É alegria. Daí eu disse: ‘Um momento que tá rolando um negócio aqui’. Aí respirei fundo e imediatamente veio em mim a mente a imagem de minha irmã.
Recebi a mensagem dela, toquei e terminei o show. Mais tarde, quando cheguei em casa, já sabia. Minha mãe me telefonou participando da morte de minha irmã. Daí eu respondi: ‘Eu já sabia,
mãe’. Mesmo tocando eu já sabia. Dediquei a ele tudo de maravilhoso através da música.”
Os conceitos hermetianos são repletos de magicismo, imaginação e sonho. Sobre os sonhos ele diz: “Tudo que eu sei aprendi sonhando. Aprendi a tocar sonhando, aprendi música sonhando.
Eu sou consciente. Da mesma forma que eu recebo eu envio mensagens. Eu tenho esse poder. Mas que fique bem claro que eu não sou robô ‘deles’ não. ‘Eles’ me dão o poder de exigir. Eu não
estudo nada, na minha casa eu tenho meus pontos e só de olhar pra eles eu sei se vai chover ou não. Tudo comigo acontece através da música e da intuição, que realmente é a coisa mais séria
que existe.”
SOM TOTAL E MAGIA BRANCA
Hermeto chegou a concluir o 3º ano primário. Tem, ao todo, cinco álbuns gravados, dos quais dois nos EUA e três no Brasil. Ele fala como nasceu o LP ‘Zabumbê‑Bum‑Á’, de como ele o titulou,
e do tocar de zabumba que lhe ficou:
“Esse disco eu fiz praticamente na estrada e no estúdio. Eu não queria saber o que ia tocar nem o que ia gravar.” A canção “Mestre Mará”, por exemplo, que aliás faz parte do LP ‘Zabumbê‑Bum‑Á’,
foi composta no ‘ônibus da Avenida Brasil’ e concluída no estúdio. O nome do ‘mestre recebido’, caminho do estudo de gravação, um instantâneo que dá origem ao Mestre Mará.
Hermeto diz que não consegue chorar. Seu choro é interior. Pra ele a tristeza não existe. Mas tem horas que sente um estranho embaraço na voz, o famoso nó na garganta. Sua visão de mundo
é neutralista e singularizada. Diz que quem faz o mundo somos nós mesmos e que parar na análise é não conseguir nada: “Enquanto nós pensamos as coisas o mais importante é que estejamos
todos unidos. Pensar juntos é melhor que pensar separados.”
Um de seus discos chama-se ‘Cérebro Magnético’. A capa desse LP é um desenho concebido pelo próprio Hermeto, onde ele propôs retratar o seu cérebro. Na contracapa desse disco ele diz que
o cérebro é apenas uma antena cefálica receptora da mente. “Percebi que não seria possível, no período, fotografar sua própria mente. Então resolvi desenhar e fotografar da minha mente,
que é a capa desse LP.”
Praticante de vários exercícios mentais, ele diz que se quisesse ficar rico abriria uma academia para ensinar esses exercícios. Mas como essa realmente não é a dele, prefere ficar na música mesmo.
“O que é que adianta eu ficar rico? Pra depois morrer do coração e ainda por cima frustrado?”
Ensina alguns exercícios que pratica e que, para ele, funcionam como uma espécie de relaxamento meditativo‑contemplativo e, ao mesmo tempo, como técnica de expansão de consciência
e de ideias para a expansão da consciência.
EXERCÍCIOS E PRÁTICAS PARA ATIVAR A 3ª VISÃO
Um dos exercícios mais praticados por ele consiste em fechar os olhos, exercer leve pressão sobre as pálpebras com as pontas dos dedos e relaxar. Hermeto, de quando em quando, pratica o
exercício conseguindo ver coisas e imagens. Aponta para tons na blusa de lã colorida e diz que as cores da blusa são “mais ou menos” comparadas com as cores que consegue vislumbrar quando
pratica o exercício. Não raro, no auge desses exercícios, então o músico compõe músicas e, em certos respondos com instrumentos, dispõe cada qual com seus timbres e compõe uma canção com
os olhos fechados.
E também desenha, não obstante o fato de que quando está em transe — vamos dizer assim — não vê bem os contornos das coisas, “pois são cores que vejo”, diz, citando o ditado: “Quem não
age com a mão, age com a mente.”
Eterno inconformado e sempre à procura de novos sons, Hermeto é tão exigente que nossas gravadoras não o entendem. Consegue ver até arco‑íris no meio da plateia. Por esses relatos
incríveis dá pra perceber, nitidamente, que Hermeto é uma criatura que — como diria Friedrich Nietzsche — está acima do Bem e do Mal. Simplesmente é portador da terceira visão, que nele
parece ser altamente desenvolvida.
À semelhança do Don Juan de Castañeda, Hermeto não olha simplesmente para as pessoas ou para as coisas. Ele “vê” as coisas com seu “olho especial”, fato que para ele é normal. Me arrisco
a afirmar que ele consegue “ver” tudo isso porque tem olhos de feiticeiro. Ele acredita que o termo “feiticeiro” é muito confuso e que nada tem a ver com demônios. Diz ser frequentemente
visitado, em sonhos, por entidades que o ajudam a solucionar, quando acordado, suas dúvidas no seu trabalho musical. Depois do período preparatório, vem um processo altamente
dinamizador em que ele precisa ficar esses sons e essas imagens registradas no mundo. Mas por mais que explique, não consegue dizer bem o que é. Para isso ele tem uma explicação:
“O que acontece é que a ‘pessoa’ não quer se identificar. Quando comecei a aprender música eu só distinguia as notas através do processo em que eu classificava as notas pretas com as notas
brancas. Quando eu passei do oito baixos para o acordeon eu me lembro que sonhei que as notas pretas tinham um som diferente das notas brancas. Tive um sonho até bastante interessante.
Me levantei, fui para o acordeon e as notas, as que eu sonhava, eram exatamente os sons que sonhei que ouvi.”
A ARTE NO REINO ANIMAL: DOIS PORCOS NO BEL CANTO
No começo dos anos 70 Hermeto grava seu primeiro disco: A Música Livre de Hermeto Paschoal. Sua primeira viagem ao Exterior foi para compor e arranjar, junto ao maestro e percussionista
brasileiro Airto Moreira e para a cantora Flora Purim. Seu nome foi começando a ficar conhecido no mundo da vanguarda. Desde então, o disco de nome não foi devidamente compreendido no
Brasil e acabou sendo mais reconhecido lá fora, principalmente nos Estados Unidos e na Europa. Já tocou com alguns dos maiores nomes — só para citar alguns — do jazz, como Airto Moreira,
Miles Davis, Ron Carter, Chick Corea, John McLaughlin, entre outros. Hermeto conta agora a já histórica e mítica ocasião em que levou dois porcos num estúdio de gravação norte‑americana.
SOM TOTAL E MAGIA BRANCA
Felizmente, não consegui fazer esse trabalho, mas nos Estados Unidos, onde sou muito respeitado, fiz com a maior facilidade do mundo. As pessoas logo ficaram curiosas e prontamente
liberaram o estúdio. Conseguimos arrumar dois porcos de estimação nas imediações e os verdadeiros donos dos porcos, pois eles ficaram muito impressionados. Daí eu pensei:
‘O que é que vai acontecer? Será que ele vai maltratar os bichinhos?’ Então fomos todos para o estúdio. Chegando lá eu disse para a pessoa do Airto: ‘Airto, eu quero a voz de dois porcos.
Quando eu pedir para você levantar o número 1, que tem a voz mais grave, você simplesmente levanta o bichinho; quando eu pedir para você levantar o número 2, que tem a voz mais aguda, você
faz a mesma coisa.’ E assim foi feito. Gravamos a voz de cada porco em canais separados. No final, tudo mundo ficou contente, porque ficou uma gravação maravilhosa. Aliás, essa música
chama‑se ‘Missa dos Escravos’ e foi concebida na hora da gravação; muito embora eu já tivesse isso em mente e que era o dia mais emocionante de minha vida, com os porquinhos andando ao redor.”
Para ele o Brasil é o país mais criativo e o maior celeiro musical do planeta. Hermeto não alcança a riqueza nem a glória:
“Quero ficar rico, cada vez mais rico, só que em notas musicais.”
Além de músico espetacular, também é criador de engenhosos instrumentos, como as garrafas d’água e os serralhos, outro instrumento criado por ele, que é uma tábua parecida com uma hélice
com um orifício na ponta superior. Rodando essa tábua, que difere em espessura para efeitos de novos acordes, Hermeto consegue extrair sons maravilhosos, muito parecidos com as ventanias
que prenunciam tempestades. Além desses instrumentos, Hermeto utiliza a matraca, que outrora era muito usada nas igrejas e por guardas‑noturnos de cidades que já se perderam no tempo, e
uma enorme variedade de tudo.

FESTIVAL SENSACIONAL – PARQUE ECOLÓGICO DA PAMPULHA
Show de Hermeto Pascoal e Grupo
Foto: Bruno Figueiredo / Área de Serviço
“GOSTO DE GRAVAR NO ESCURO PARA ACENDER AS LUZES INTERIORES”
O Campeão conta agora uma interessante passagem ocorrida na Argentina e que tem a ver com a sua postura de universalidade:
“Fui convidado a participar de um programa em que a minha música brasileira e minha música popular. Pros meus musicalizações foram as mais elevadas da música. Eu não gosto de som que é bobagem.
Então o cara anunciou que eu ia tocar música popular brasileira. Daí eu perguntei: ‘Você toca música na sua rádio?’ Aí o cara respondeu que sim e eu completei: ‘Pois é, eu vou fazer música.
Não sei o que.” Só sei que eu fiz. Aí ele me desculpa e eu disse que queria trabalhar no estúdio para fazer o programa. Eu me lembro que eu só acendi as luzes interiores. O público que agora eu
não lembro, então eu me sinto na condição da criatividade imediata. Então eu disse: eles em mim e me deixaram absolutamente à vontade. Fiz um trabalho que os deixou muito impressionados,
os fluidos do país em que me encontrava. No final o cara vibrou.”
“Sonhar é uma boa maneira de se aprender qualquer coisa. É só tentar.”
Relatando este caso, Hermeto assumiu um semblante grave e seus pequeninos olhos brilhavam de emoção. E prossegue: “No dia em que eu estava nos Estados Unidos conheci Cannonball Adderley.
Conheci muito superficialmente e jamais estive em sua casa. Não tinha nenhuma afinidade com ele, mas sim uma enorme afinidade espiritual, que constataria mais tarde. Tanto é que sempre
quando ia para os Estados Unidos, não sei de que forma, ele sempre vinha a mim.”
DEPOIS DA MORTE DE CANNONBALL, UMA MÚSICA PRECISA SER RECONHECIDA PELA ESPOSA DO ARTISTA
“Eu estava com o saxofonista norte‑americano Cannonball Adderley, integrante do grupo de Miles Davis. Deixemos que ele mesmo conte a história:
‘Quando eu estava nos Estados Unidos conheci Cannonball Adderley. Conheci muito superficialmente e jamais estive em sua casa. Não tinha nenhuma afinidade com ele, mas sim uma enorme
afinidade espiritual. Que constataria mais tarde. Tanto é que sempre quando ia para os Estados Unidos ele sempre vinha a mim.’”
Hermeto prefere gravar no escuro “para acender as luzes interiores”. “Quando era criança ficava em frente ao espelho tocando e encantado o que o instrumento revelava. Consegui tal proeza
que até hoje eu toco de olhos vendados, quando a mão só serve de auxílio, consegue fazer um som novo, absolutamente original. ‘Eu fico turbinado por ele’, diz, num ponto que pode ser bem
explorado ou não.”
“Foi durante a gravação do LP ‘Missa dos Escravos’ que eu tive a pena de trazer o Cannonball ao estúdio. Chegando lá, falei para o técnico: ‘Vamos gravar. Pelo amor de Deus. Precisamos
gravar agora.’ Então, quando gravávamos, recebi a mensagem de Cannonball Adderley. Depois da gravação tirei a fita e mandei para a esposa dele, que ainda estava muito chateada com a perda
do marido. Essa música foi enviada através de um amigo do casal. Mas eu reconheço: ela só iria aceitar isso depois que ouvisse. Apenas pedi que esse amigo mostrasse a fita para ela, mas
sem dizer que era minha. No dia da audição, quando ela ouviu a música, os músicos… todos choraram. Todo mundo ficou muito louco. Super high. Quando a esposa de Cannonball ouviu a música,
ela imediatamente me enviou a imagem do marido. A música chama‑se ‘Cannonball’, mas eu não sabia disso. Foi só depois dela dito, ao amigo que levou a fita, que aquela música fez com que
ela lembrasse do esposo, pelo que contou toda a história. Ela ficou sensibilizadíssima e pensou que eu agradecer a mim, em reconhecimento por essa homenagem que eu prestei a ela, mandou
o saxofone dele para que tocasse. Posso até dizer que a música o saxofone seria levado ao museu. Nesse momento que ganhei o saxofone porque achei que os americanos iam ficar com ciúmes.
Vão pensar que eu além de eu fazer música, que eu ganhei o saxofone. Aí eu disse que não queria e que quando eles quiserem me mandar, que mandem. Então, pra evitar mal-entendidos, eu recusei
o saxofone.”
Hermeto não sabe quantos discos já vendeu e nem se preocupa com isso, pois mesmo que procure saber nunca saberia ao certo. O que ele sabe, e tem certeza, é que pelo menos 10 trilhões de
pessoas escutam assiduamente em todos os planetas.
