NA AULA DE RELIGIÃO

Querido amigo Arsenio.

Li este texto e lembrei-me de você. Ele fez voltar à minha mente suas palavras sobre a importância de se manter a mente livre das “verdades prontas e estabelecidas” que o sistema constituído nos impõe e dos perigos da culpa compulsiva que a palavra pecado traz em si.

Grande abraço do amigo Arnaldo.

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image1KAO cenário: turma de jovens na sala de aula de um colégio esperando a professora de religião para a aula inicial. Os garotos e garotas estariam certamente mais interessados em aprender noções de sexualidade do que em ouvir falar de pecado. À moçada debruça-se displicentemente sobre as carteiras. como se dissessem com os próprios corpos que preferiam não estar naquele lugar. Alguns, mais sagazes, manifestam através do humor a sua contrariedade.

    Paulinho: “Oh… deus! Por que me fazes estar aqui nesta bela manhã de sol ao invés de na praia olhando as meninas (risos generalizados). As gêmeas Roberta e Renata comentam em voz alta: É, ele está mesmo certo!

    A bela Aninha, admiradora secreta de Paulinho, sorri e registra mentalmente mais esta demonstração de presença de espírito e independência do rapaz.

    Entra em sala Dona Maricota, encenando sua melhor pose de autocontrole, após ter escutado em segredo as manifestações de protesto da turma. Na verdade ela guardava o hábito de, como legitima fofoqueira, colar o ouvido à porta da sala para bisbilhotar o que a meninada dizia.

    Dona Maricota: Bom dia, classe. Parece que hoje vocês estão um pouco inquietos. Qual é o problema, afinal?
 
     Paulinho: A senhora acha justo que nós tenhamos que assistir a uma aula de religião? Aliás, Dona Maricota, vou refazer a minha pergunta: a senhora acha que seria possível ensinar religião?

    Dona Maricota, sentindo um tremor nas bases: Que idéias são essas, menino. Todos precisam passar por uma doutrinação, digo, orientação. É muito perigoso que suas mentes fiquem sem rumo.

    Ludovico, lá do fundo da sala, reúne toda a sua coragem para desafiar o poder instituído e levanta a voz para dizer, ainda que gaguejando: “…fessora, meu pai costuma dizer que somente nós podemos escolher o rumo de nossas vidas.”

    A turma agita-se e um burburinho corre a sala. As crianças filhas de pais dominadores espantam-se com aquelas demonstrações de independência, que elas não ousam mostrar. Outras crianças concordam e apoiam a intervenção e a coragem do tímido Ludovico.

    Paulinho sentindo que não está só, retoma: “…Então, a senhora acha que nós mesmos não somos capazes de conduzir nossas próprias idéias e que deve nos dizer o que é o certo e o errado?”

    A velha professora sente um nó na garganta lembrando de uma vez em sua juventude quando ousou desafiar o pai. Recorda-se de uma indefinível sensação de culpa, de sentir-se uma menina mal-comportada por não obedecer exatamente como lhe era cobrado, por sentir-se uma pecadora. Lembra-se, afinal, de como abraçou a fé religiosa tentando aliviar o sentimento de culpa por ser humana, isto é, não ser perfeita como Deus.

    Ela agora sente como se sua garganta fosse fechar mas disfarça e, com um tom de voz mais agressivo, diz: “…Meu filho, você precisa tomar muito cuidado. É bom saber que muitas vezes quando nós fazemos perguntas que questionam a Verdade de Deus e afirmamos coisas que parecem inteligentes, na realidade não somos nós que estamos falando mas sim o Diabo que está falando através de nossa boca.

    Paulinho, revidando o fogo: “…Opa!!!!…. a senhora quer dizer que quando nós pensamos e agimos de forma inteligente estamos sendo orientados pelo Diabo? Então qual é a parte de Deus nesta história? Por que ele deixa com o Diabo os mais inteligentes? Será que ele prefere a companhia dos medíocres, dos que se contentam em abaixar a cabeça todo o tempo e concordar sempre, aceitando tudo sem critérios?

    A cabeça de Dona Maricota gira. Aquilo tudo é demais para ela. “Eu não ganho o bastante para suportar isso”, pensa. “Este menino rebelde me faz lembrar de uma parte de mim mesma que eu prefiro esquecer. Não tenho força o bastante para domá-lo. Vou apelar para um poder maior, chamarei o diretor da escola. Aí ele vai ver só.”

    Alguns minutos mais tarde adentra a sala Dom Estevão, diretor da escola, já preparado para o combate após ter sido alertado por Dona Maricota. Ele portava sua estudada máscara de placidez e benevolência, a qual já usara para dominar diversas gerações de jovens fogosos.

    Dom Estevão: “…Bem, crianças. parece-me que algumas de vocês julgam-se já maduras para decidir o que devem fazer de suas próprias vidas. certo?”

    Paulinho, sem dar mole para o “santo homem”: O senhor quer dizer que sabe mais do que nós próprios, o que é o melhor para nós?”

    Sentindo que a parada ia ser dura, Dom Estevão apela ao seu repertório: “…Cuidado, meu filho, você sabe que quando nós fazemos perguntas e afirmações que questionam a Verdade de Deus, na realidade…”

    “…Sim, já escutei esta antes Dom Estevão. Estamos sendo orientados por Satanás”.

    “…Não o diga em voz alta, garoto! Este nome tem poder. Ele é o símbolo de tudo o que é errado nesta vida e que vocês devem evitar”.

    Paulinho suaviza o tom: “…Desculpe, mas eu estou apenas querendo entender. Não estou aqui para engolir o que me dizem como sendo algo absoluto e inquestionável. Tenho dúvidas, sim, e fico pensando em qual seria a melhor atitude a tomar em determinado momento. Porém sinto também que as dúvidas fazem parte de nossa natureza humana e que amadurecemos quando aprendemos a escolher por vontade própria. Nenhuma outra pessoa pode aprender por nós. Também sinto que o homem é agente de sua própria história. Por acaso, o senhor também não tem dúvidas sobre as suas escolhas, padre?”.

220px-ParadiseLButts1    Dom Estevão sente as bochechas esquentarem como brasas. Os alunos riem ao vê-lo vermelho como um diabo (com o perdão da palavra, Dom Estevão). Um suor frio surge em suas mãos enquanto um calor infernal (com o perdão, etc.) sobe por dentro de sua batina. Em um átimo o padre vê, projetados na imagem daquele rapaz, todos os seus medos escondidos, suas dúvidas abafadas em silêncio autocomplacente, seus desejos inconfessáveis, suas insatisfações mudas. Subitamente encontra uma explicação para o que está sentindo; sua voz, até então presa na garganta, explode num grito horripilante:
“…Satanás! És tu, maldito! Afinal me achastes, após tanto tempo! Saia daqui, demônio! Não quero ouvir-te, amaldiçoado cão dos infernos”. E, deixando-se tomar por fúria e desejos reprimidos durante longos anos, Dom Estevão berra a plenos pulmões, numa catarse quase orgástica: “…Satã, seu cão danado! Você faz tudo para que nós te admiremos, para que nos encantemos por você! Você vem nos tentar à noite em sonhos, ou de dia em pensamentos anti-conformistas. Eu já não aguento mais as tentações sucedendo-se, uma após a outra, todos os dias, todo o tempo, sempre, sempre!”

      “Agora até mesmo as crianças falam com a tua voz. Tu estás em todos os lugares, és onipresente a perseguir-me onde quer que eu vá. Sinto que estás agora dentro de mim, em meus pensamentos e emoções! Sai de mim! Sai capeta! Vou exorcizá-lo! Vou chamar o Rambo, quer dizer, o Ratzinger! Vamos restaurar os tribunais da Inquisição!”
 
    Paulinho levanta-se para tentar abraçar o padre e acalmá-lo, mas este apavora-se ao vê-lo mover-se.

    “..Vade retro, Satanás! Você é a imagem de todos os meus medos, de todos os desejos secretos que sufoquei desde a juventude, de minha sexualidade reprimida, de minha angústia e do meu inconformismo com a justiça divina na qual não acredito porque não consigo entendê-la. Mas eu não quero entender nada! Não quero nem mesmo pensar, Satã! Não quero questionar nada, não tenho coragem para isso. Nunca tive a coragem necessária para ser contestador, só quero obedecer e que me deixem em paz. Por isso imploro-te que me deixes, trevoso. Saia de minha vida, estou ficando louco. Socorro mamãe Maria, salve-me rainha!”

lucifer_by_a11e-d5wu2l0    O jovem, comovido pelo lastimável estado a que tinha se reduzido o pobre diabo, isto é, o pobre padre, encaminha-se para a porta de saída. Na soleira, ainda vira-se para deixar uma última mensagem:

    “…Acalme-se, Dom Estevão. Não amaldiçoe uma possível bênção. Se Lúcifer realmente apresentou-se ao senhor, ele pode ter vindo trazer-lhe uma Luz de esclarecimento. Duvidar é humano e o senhor também é humano, mesmo se alguns delírios de grandeza e santidade tenham lhe perturbado o juízo durante algum tempo. Um momento de dúvida pode ser a véspera de uma importante tomada de consciência, seguida de uma valiosa mudança de atitude e, até mesmo, de um inesperado atalho em nossa trajetória de vida. E as mudanças não são ruins quando nos acrescentam experiência e sabedoria vivida. Refazer uma rota traçada não significa imaturidade ou leviandade. Pelo contrário, pode representar a grandeza de espírito de quem sabe reconhecer que cometeu um erro e também sabe que é livre para começar de novo, sem culpa nem sentimento de pecado, com o perdão de tão nauseabunda palavra. Se aparentemente erramos, ao menos estamos  aprendendo a não cometermos os mesmos erros mais tarde. É assim mesmo o caminho da evolução, errático mas não destituído de prazer, contanto que seja livre. E, admita padre, Lúcifer tem lá seus méritos se fez o  senhor pensar um pouco nestas palavras após provocar esta pequena revolução”. Cai o pano.’

Saulo Ahau é Escritor e Estudante de Tarot.

N.A.: Os personagens e situações aqui descritos são fictícios. Quaisquer semelhanças com situações que o leitor tenha vivido ou com pessoas que tenha conhecido será, quem sabe, mera coincidência.O Arnaldo Lima encontrou este texto na Revista Safira Estrela
Edição de Setembro de 1998

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