Raul Seixas, Rock e Anarquia

 

 

Por: Toninho Buda

Texto publicado na Revista do Rock
em Janeiro de 1996

“Marcos, o Rock tem cabelos compridos. Marcos, se não tiver cabelos compridos, não é Rock ! Você não concorda ?” Repetia o Serginho Arruda, tentando conversar debaixo daquela zueira. Claro que todos nós
concordávamos. Estávamos encarapitados no último degrau da ala direita do sambódromo, maravilhados com o que rolava lá embaixo. Era a noite quente de verão do dia 27 de janeiro de 1996 e no palco do Hollywood Rock estava Robert Plant, acompanhado por Jimmy Page e sua guitarra temperada com bruxarias crowleyanas. Um showzaço ! Alguns minutos depois, 40 mil pessoas começaram a girar suas camisas acima da cabeça e todos ficamos com a respiração suspensa, esperando o sambódromo decolar tal qual um disco voador. Um momento mágico ! O próprio Robert Plant declarou que nunca havia visto nada igual em toda a sua vida !
 

 

O Rock tem seu lado filosófico e político, como vimos em “Anarquismo e Rock’n’Roll”. Vimos um pouco de seu perigoso lado místico e esotérico em “A Obra Mágica de Raul Seixas”. Continuando dentro da linha das “ciências ocultas”, vamos ver um pouquinho da influência da Astrologia na linguagem do Rock. Foi
pensando naquela observação do Serginho acerca dos cabelos compridos que eu busquei mais uma vez na
locadora o musical “Hair” (“Cabelos”). Este filme é provavelmente o trabalho artístico mais representativo da Contracultura. Ele foi baseado na peça de teatro homônima, de Gerome Ragni e James Rado. Esta peça fez um fabuloso sucesso na Broadway no final dos anos sessenta e foi encenada também no Brasil por volta de
1970. Aqui o elenco incluía Marília Pera e Sônia Braga. Pela primeira vez foram colocados atores nus no
palco, discutindo sexo, drogas e amor livre. A versão para o cinema foi preparada por Milos Forman e revelou os talentos de John Savage e Treat Williams. O seu conteúdo político é o protesto contra a Guerra do Vietnam e o conteúdo místico é o advento da Nova Era, ou Era de Aquarius. Aliás, todo o movimento da Contracultura tem, como motivações políticas principais, a luta pelos Direitos Humanos na Europa e a luta contra a Guerra do Vietnam nos EUA. “Faça o Amor, não faça a Guerra”. Mas que “Nova Era” é essa ?

 

Em outra ocasião poderemos discutir o que significa “Era de Aquarius” astronomicamente. Mas para simplificar podemos afirmar que estamos atualmente no final da “Era de Peixes” e esperando a “Nova Era”. O maior evento de celebração desta esperança foi o “Festival de Woodstock”, em agosto de 1969. Grandes obras, grandes eventos e grandes nomes marcaram o auge deste período, como outra peça chamada “Jesus Cristo Superstar”, os livros de Castañeda, a guitarra de Hendrix, a voz de J.Joplin, a postura de Lennon, os protestos de Bob Dylan, etc. Mas se existe uma música que possa sintetizar isso tudo, ela se chama AQUARIUS, o tema principal do filme Hair.

 

E foi ouvindo cuidadosamente a música que eu descobri que ela contém um mistério astrológico ! Ela foi gravada por um grupo chamado “5a Dimensão” e diz na primeira estrofe: “When the Moon is in the Seventh House, and Jupiter aligns with Mars. Then Peace will guide the planets and Love will steer the stars. This is the dawning of the Age of Aquarius”. Ou seja, numa tradução livre: “Estando a Lua na sétima casa e Júpiter alinhado com Marte, então a Paz poderá guiar os planetas e o Amor permear as estrelas. Assim poderemos ter o alvorecer da Era de Aquarius”. Ora, existe aqui um fato estranho: Para que se determine a sétima casa de um Mapa Astral, é necessário que se tenha a data, o local e a hora de referência . É claro que a música se refere ao início da Era de Aquarius, mas ela não diz QUANDO seria este início… Diz somente que a Lua deveria estar na sétima casa e Júpiter estar alinhado com Marte.

 

Para encontrar a chave deste mistério, eu solicitei a assistência do instituto Imagick de São Paulo, que é dirigido pelo casal Arsênio e Zelinda Orlandi Hypolito. Eles buscaram determinar no computador quando esta situação se configuraria no céu, para então encontrar a data em que ela se daria. Ou seja, percorrer o caminho inverso: ao invés de ter uma data para obter uma configuração, ter uma configuração para concluira data. Assim, buscando decifrar o enigma da música Aquarius, foi encontrada a data de 20 DE JANEIRO DE 1998 PARA O INÍCIO DA ERA DE AQUARIUS, com a Lua na Sétima Casa (a 24 graus e 40 minutos de Libra) e Júpiter alinhado com Marte. Daqui a MENOS DE DOIS ANOS ! E são muito interessantes as relações entre o resto da música e as características desta configuração astrológica. Pois a Sétima Casa é a casa do OUTRO. Ela representa o amor e o respeito pelas outras pessoas (“make love, not war”). A Lua representa o sentimento, a compreensão, a emoção, a mãe, o amor e o carinho maternais. Júpiter é aquele que AMPLIA (principalmente a consciência) e Marte é aquele que IMPULSIONA. Os dois alinhados – como manda a música -, podem perfeitamente representar o LSD. Pois o ácido lisérgico foi o veículo mais poderoso utilizado para o que era chamado de “ampliação da consciência”, no movimento Hippie. É na configuração deste céu de pedras preciosas que surgem as luzes das
estrelas : “Lucy in the Sky with Diamonds”. O Sol em Aquário determina o domicílio do Leão Solar, pois uma
“Era” tem sempre o nome de duas constelações opostas. No caso de Aquário, a dupla se chama “Aquário-Leão”.Nós hoje ainda estamos na era de “Peixes-Virgem”.

 

Todas estas românticas considerações passam longe do fato de que faltam aproximadamente 600 anos para que – em ASTRONOMIA – o Ponto Vernal atinja os limites da constelação do Aquário. Somente assim teríamos uma correspondência entre Astronomia e Astrologia, para o início da “Nova Era”. Mas para os Hippies realmente importava muito pouco se faltavam 600 ou apenas 2 anos para o início da Nova Era. Era muito mais importante estar “de cuca feita” para ela do que estar preocupado com pequenos detalhes de espaço e tempo… E podemos estar certos de que eles tinham razão !

 

Eu me lembro muito bem dos ecos da Contracultura na minha adolescência, numa cidadezinha do sul de Minas. A televisão só apareceria por lá por volta de 1965. Por volta de 1966 eu tinha 16 anos e era muito mais chegado ao que chamávamos de J.T. (Juventude Transviada) do que aos Hippies. Quem era da nossa gang não tinha medo. Já tínhamos uns cacarecos de velhas motocicletas Zundapp, Norton, BSA e Harley Davidson. Andávamos armados e gostávamos muito mais de uma pancadaria do que de “paz e amor”. Nossa droga ainda era a droga da violência gratuita: o álcool. Nós éramos “revoltados” e nosso grande sonho era “fugir de casa” para adentrar as florestas do Mato Grosso e viver uma vida selvagem ! Aos 14 anos meu pai me proibiu o violão, que era coisa de roqueiro. E para ele, roqueiro era o mais novo tipo de “vagabundo”. Mas a coisa que mais o incomodava era aquele meu maldito cabelo comprido, que ele mandava raspar a zero quando perdia a paciência. Preso na cadeira do barbeiro e sendo tosqueado com aquela dolorosa máquina manual, eu já odiava o “Sistema”. Só não tinha consciência disso. Mas mantenho esta postura crítica até hoje, pois o grosseiro Sistemão continua exatamente o mesmo. A diferença é que hoje eu sei que fui um idiota usando armas e violência gratuita, que são coisas burras e ineficientes. De uma forma mais alegre e feliz, nós precisamos tirar este pesado e moribundo espectro dos séculos da nossa frente. Precisamos de oxigênio, luz, ação, dança e alegria.Precisamos do Rock. E o Serginho tem razão: tem que ter cabelo comprido, prá esvoaçar na ventania.

filipeta