POR QUE PERSISTE O RACISMO?

Hoje, como há séculos, o homem convive com a discriminação a todos os que não partilham do seu modo de viver e pensar.

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Por Marco Antonio de Carvalho

A partir de determinado mo­mento da sua história, o homem passou a não fazer mais guerras como antigamente: as lutas entre os diferentes povos que viviam nesse planeta se deviam, até então, a so­nhos de poder centralizado por parte de um príncipe ou de um lí­der religioso, ou a conquista de no­vas terras para a pastagem do gado, para a agricultura ou uma passa­gem para o mar.

Ou, mais simplesmente ainda, as guerras eram feitas porque algum rei resolvera expan­dir seu território, na busca de um maior número de escravos e súditos o que, ao fim, é a mesma coisa.

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Em um dado instante, no en­tanto – e seria do maior interesse descobrir quando e onde tal fato ocorreu -, o homem passou a guer­rear, a perseguir e a massacrar ou­tros homens apenas porque esse outro era diferente. Terras foram invadidas e, mais tarde, lares e consciências, porque o vizinho não tinha a mesma crença religiosa, a mesma cor de pele, nem se vestia como o agressor gostaria que ele o fizesse.

Assim, persegue-se, destrói-se e mata-se, ainda hoje como há séculos, não apenas porque o outro vive do lado de lá do rio – enquanto eu vivo aqui, nesta margem menos fér­til, ensolarada e bela mas principalmente porque ele não acredita no mesmo deus que eu, a cor da sua pele não é a minha, ele não fala a língua dos meus amigos, não se veste como meus pais me ensina­ram e sequer dança, canta e ri ao som dos ritmos que aprendi a gos­tar. Pior: não trabalha como eu.

Em algum momento da história humana passou-se, assim, a invadir, torturar e matar outros homens não mais para conquistar suas ter­ras e escravizar seus corpos – mas para domar e dirigir suas consciên­cias. Ou seu espírito, como querem os religiosos profissionais.

pimped 23Ao guerreiro, então, já não bas­tava mais invadir, destruir, aniqui­lar seu adversário: interessava, antes disso, fazer o inimigo adotar o deus e senhor do invasor. O homem der­rotado deveria abrir mão da sua fé – aliás, tudo que pudesse represen­tar a cultura do povo invadido de­via ser esmagado, a começar pela religião. Com isso, o que se preten­dia era mudar o comportamento dos vencidos, dando-lhes uma nova regra de vida, imposta pelos vence­dores.

As guerras passavam, assim, a ser santas – um conceito usado pelo ju­daísmo, pelo cristianismo e o islamismo, três religiões messiânicas: o inimigo é a encarnação do Mal. Já não se lutava mais contra homens, mas contra seres demoníacos: apa­rentemente humanos, porém no fundo cheios de maldade, prontos para praticar todas as atrocidades, exatamente pela sua inumanidade.

E o povo que encarna o Bem, que tem a divindade, a verdade e toda a razão ao seu lado, não pode ter nenhum tipo de piedade ou contemplação com a dignidade hu­mana ao tratar com tais semi-homens: na verdade, não luta con­tra os seus iguais. E, se o inimigo representa todo esse horror, deve ser destruído da forma mais vio­lenta e degradante possível – para servir de exemplo.

cruzadas1É claro que esse gênero de comportamento, ao que parece relativamente recente na história humana, relaciona-se totalmente com a apo­logia do “eu”. É o ego que passa a ser levado às últimas consequências, o “eu” elevado à divindade: só eu e meus iguais sabemos o que é bom para a população que nos cerca e depender de nós, todos os homens passarão a agir dessa forma ideal que só nós conhecemos. E, como temos todas as bênçãos, podemos agir como bem entendermos, sem autocensura ou maiores preocupações – é pelo bem de todos os homens. Não temos tempo a perder: ou todos se adaptam àquilo em que acreditamos ou devem ser destruídos. Não existe meio-termo.

O mais curioso é que, com exce­ção de alguns trabalhos de Freud, das tentativas de buscar uma expli­cação simbólica por parte de Cari Jung, ou das preocupações constan­tes de Wilhelm Reich, poucos ana­listas do comportamento humano se detiveram mais longamente so­bre esse tema tão atual: o horror do diverso, o medo daquele que não lhe é semelhante, a tendência a afas­tar aquilo que não se conhece.

E, no entanto, foi esse precon­ceito tão disseminado pelo mundo inteiro que deu origem a toda forma de racismo, do mais violento – que leva às guerras de fronteiras, às lutas pelos direitos das minorias, ao conceito colonialista do mundo e às divisões sociais -, ao mais sutil. Este, está presente no dia-a-dia e poucos ainda têm sensibilidade bas­tante para notá-lo, apenas porque é mais fácil e cômodo acreditar que os dogmas da maioria já se toma­ram verdade, de tanto que são repe­tidos.

Quadro 'Echo and Narcissus', de John William Waterhouse, datado de 1903Ora, mas por que o racismo seria um tema para psicólogos, psicana­listas, psiquiatras? Simplesmente porque, pelo menos na aparência, é um preconceito filho do narci­sismo: a regra é afastar e de pre­ferência, destruir – tudo e todos que não se pareçam comigo ou a mim se adaptem.

É claro que narcisismo aqui está sendo visto no sentido mais amplo possível: o espelho nos mostra a nossa beleza e sabedoria, mas é a partir desse espelho que descobri­mos que o mundo deve moldar-se a nós.

Se somos tão belos e sabemos tanto, se fomos ungidos pelos deu­ses e se, de certa forma, somos en­viados pelas divindades, precisamos espalhar as boas novas pelo mundo. E a melhor forma de nos fazermos amados como esperamos é, inicial­mente, fazer com que todos nos co­nheçam e se dobrem diante de nossa beleza, palavras, poder, auto­ridade. Aliás, nesse sentido, quem mais narcisista do que o deus cris­tão, que fez o homem ‘‘a sua ima­gem e semelhança”?

Nem mesmo a antropologia trata habitualmente com maiores cuida­dos o tema racismo, a não ser em casos como Raça e História, de Claude Lévi-Strauss, para quem a tendência em recusar humanidade aos homens que não se parecem co­nosco e chamá-los de “selvagens” e “bárbaros” é uma prova de selvageria e barbárie de nossa parte: “Bár­baro é, em primeiro lugar, o ho­mem que crê na barbárie”, diz ele.

No mundo ocidental, onde todo o comportamento humano está ba­seado em conceitos judaico-cristãos, o deus é masculino e único, protetor e autoritário a um só tempo, e o primeiro grande cen­sor: com sua onisciência, vigia eter­namente até mesmo os mais ínti­mos pensamentos e sonhos do ho­mem.

Creación_de_Adán_(Miguel_Ángel)Esse, inclusive, é mais um dado curioso que os estudiosos do comportamento humano pouco têm discutido: o que deve representar para nós, ocidentais, sabermos desde a infância que há alguém, uma divindade invisível, que não deixa a nossa consciência em paz. Poderíamos dizer, talvez, que esta divindade é totalitária e que todos os ditadores do mundo têm em quem se espelhar. Quem sabe o deus cristão – ou todo deus único – tenha sido o primeiro Grande Irmão da história: ele está sempre de olho em nós, vigiando, cobrando, perseguindo.

Essa divindade única é, assim, um ser antropomorfizado e tem re­ações extremamente emocionais: irritadiço, dita regras, exige obe­diência irrestrita e explode de raiva quando não o atendem, enviando raios, destruição e morte. Juiz e po­licial ao mesmo tempo, faz as leis e cobra seu cumprimento, por mais absurdas que possam ser as exigên­cias – como, por exemplo, no caso de Abraão. Com tudo isso, não se pode dizer desta divindade que suas características sejam amor, carinho, atenção: é feita mais de raiva, arro­gância, autoritarismo.

207004iD4D4EE8B753A026BAs ilustrações que mostram o Cristo tentam retratar um homem europeizado, branco, cabelos lisos, olhos claros – quando, por várias vezes, historiadores e arqueólogos isentos afirmaram que dificilmente ele teria possuído tais características raciais. Como se sabe, Cristo nasceu no seio de um povo cujos traços es­tavam longe de ser os retratados comumente.

É como se o cristão, na maioria branco e europeizado, quisesse adorar a uma divindade branca e europeizada, bem à sua imagem e semelhança. Exemplo disso talvez seja o fato de o Vaticano ainda não ter presenciado homens asiáticos, negros ou com traços indígenas ocupando o trono de Pedro.

Dessa forma, Roma age exata­mente como os líderes judaicos, que têm a pretensão de que seus se­guidores formem o “povo esco­lhido”, isto é, os que professam ou­tros credos seriam inferiores. O cristianismo pretende o mesmo, pregando a superioridade dos cris­tãos e, no caso específico do catoli­cismo, submetendo-se a papas brancos e repletos de conceitos europeus. Claro está que o islamismo não fica atrás: Alá é o deus único e todos devem ser submissos à sua vontade.

Imbuído de símbolos desse gê­nero, o homem cristão e branco – e, em suas regiões, o homem judeu e o islamita – não tem mesmo por que se preocupar com seja o que for: ele tem por pai uma divindade que tudo sabe, que lhe serve de apoio e tem as mesmas características físicas do filho.

Com isso, esse homem branco e cristão pode acreditar que tudo está no mundo somente para servi-lo: a terra, a água, as mulheres, os ani­mais e os homens que não profes­sam o seu credo. É como se ele pen­sasse: “Tudo isso é meu e dos meus iguais. Sou feito à imagem do deus e o mundo existe para me servir. Faço dele o que bem entender: po­luo, destruo, queimo, persigo e mato a quem não se submeter a mi­nha vontade. Que todos se pareçam comigo – ou que desapareçam. ”

garroteÉ ainda sob tais pretextos que é possível ao homem cristão torturar os seus inimigos, um ato que foi re­gra na Inquisição e hoje é adotado em todas as guerras, delegacias e hospícios: qual a finalidade da tor­tura senão submeter, massacrar, aniquilar a consciência do tortu­rado? E quem torturaria, a não ser aquele que se crê com a razão, a verdade, a divindade ao seu lado? Por isso cristãos e católicos pude­ram perseguir judeus, escravizar ne­gros, massacrar índios, invadir países islamíticos

Qualquer pessoa mais observa­dora já notou que as crianças, em geral, não têm um comportamento racista. Pelo contrário: elas são cu­riosas, se interessam pelo desconhe­cido, o novo. O mesmo se dá, se­gundo os antropólogos, com indí­genas e grupos pré-civilizados: ao encontrar homens diferentes eles demonstram a curiosidade de uma criança. Gritam, riem, tocam, chei­ram, querem descobrir o que há de comum entre eles e o grupo de des­conhecidos recém-chegados.

Poderíamos perguntar, talvez, se existiria qualquer tipo de racismo ou preconceito desse gênero em uma sociedade onde a religião é politeísta e os deuses possuem várias faces. Ou se é possível encon­trar qualquer traço de machismo em uma cultura cujo deus fosse fe­minino ou, melhor ainda, demons­trasse características femininas, como carinho, ternura, aconchego. Mais: seria possível encontrar toda essa quantidade de preconceitos com os quais convivemos diaria­mente em uma cultura onde o ego não fosse tão evidenciado quanto o é para nós? Seria possível estarmos cercados de autoridades de todo o gênero se o deus cristão não fosse tão centralizador?

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