Mestres(as) e caminho solitário

bambuuEste tema de mestres e solitude do caminho é interessante.

A questão que vejo aqui é que flutuamos entre dois extremos.

Por um lado existem os que se tornam dependentes de mestres e de outro os que negam totalmente isso. Todo extremo é danoso e é sempre útil buscar o saudável caminho do meio. Usaria o exemplo da Arte Marcial para deixar claro como vejo o processo. Não existe arte marcial sem mestre. A essência da Arte Marcial não é essa pancadaria glorificada pelos filmes modernos, é outra coisa. Arte Marcial é um estilo de trabalhar as energias corporais que resultam inclusive em uma habilidade de se defender, mas não é esse seu objetivo focal. Shao Lin, em seus muitos mosteiros e tantos outros centros de aprendizado não tinham na formação de combatentes seu objetivo, isto só acontece mais tarde, quando condições históricas assim obrigam e ainda assim a luta é uma forma de expressão de algo mais amplo.

Taoistas buscam algo mais que lutar, os movimentos, tidos por “experts” ocidentais como excessivos e desnecessários, na realidade tem a função de harmonizar a energia que flui pelos meridianos do corpo, harmonizar e vitalizar os centros orgânicos , é um aprendizado acumulado por gerações e para transmitir na integra tais conhecimentos há a figura de quem ensina. Um conhecimento que durante milhares de anos foi acumulado pode ser transmitido, se fôssemos seguir sós no caminho teríamos que ter uma vida de milhares de anos para aprender tudo.

Isso é o “mestre” ou “mestra” embora estes termos sejam tão deturpados que gosto mais do termo que alguns xamãs como o Doutor Carlos Castaneda usa: Benfeitor. Alguém que te ajuda no trabalho, te transmite o conhecimento acumulado por gerações.

Quando Vc aprende matemática não precisa investigar todos os teoremas matemáticos e leis da física. Se o fizesse poderia por exemplo ficar preso no paradigma newtoniano. Mas tem alguém prá te contar que tal paradigma já foi superado e hoje temos a abordagem quântico relativística. Precisamos de alguém para nos contar que o senso comum da abordagem da física clássica foi superado e que a realidade é paradoxal e complexa.

Na Magia ocorre o mesmo. A abordagem pelo senso comum pode levar a erros sem fim. Quantas civilizações ancestrais caíram pelo uso equivocado da magia. Magia não é alguma bobeira mística que podemos “intuir” se formos bons, ou algo assim. É Arte, mas é também ciência. E alguém entraria num laboratório cheio de ácidos e venenos e ficaria buscando por intuição uma mistura entre tais substâncias?

Aliás, a própria intuição é uma habilidade que precisa ser desenvolvida, pois a cultura dominante a bitola profundamente. Mas o mestre real numa linhagem marcial não fica se arrogando títulos ou posições. Ele ou ela, apenas já dominam o suficiente o espírito da Arte para transmitir a outros de forma sistematizada e eficiente.

Aliás, num grupo de arte marcial tradicional quando um aluno novo chega ele não começa já tendo aula com os Mestres da casa. Começa com instrutores que estão mais próximos da realidade de quem chega. Passa por um período de adaptação, um noviciado até ser iniciado formalmente na “família” como chamamos.

Isto ajuda quem chega, que encontra apoio em alguém que está mais próximo de seu estágio, que vai compreender suas dificuldades por ter recentemente passado por elas e ajuda quem faz o papel de instrutor que tem de rever todos o seu próprio aprendizado para poder ensinar com eficiência. Aprender alguma arte marcial depende totalmente de Vc, de sua dedicação, de sua força de vontade, de sua disciplina e ninguém pode te dar a técnica, podem te ensinar, ninguém pode te levar a se desenvolver, podem te mostrar como. Assim também é na Arte Mágica.

Pessoas a mais tempo na arte podem servir de instrutores, pessoas que já aprenderam nuances da Arte, a contornar suas armadilhas e que podem auxiliar no desabrochar de quem está aprendendo. Ninguém pode aprender por Vc, ninguém pode te desenvolver. Podem te auxiliar dando-lhe subsídios.

Qualquer sinal de arrogância porém, de pretensa superioridade indica apenas que temos um ego inflado, uma pessoa que incapaz de se colocar no mundo cotidiano usa da magia para satisfazer suas fantasias de prepotência e poder. Títulos pomposos, “senhor” , “senhora” , “cavaleiro” do tal grau, tudo isso é resquício de um tempo que já se foi. Senhor, domine, está ligado a um arquétipo que nada tem a ver com o paganismo, é profundamente judaico-cristão e só ocorre nas sociedades que decaíram profundamente.

A humildade de quem conhece o mistério vem naturalmente, sabe que somos nada perto da eternidade, que somos efêmeros demais, que temos um longo caminho até para nos considerarmos existentes de fato e frente a imensidão da eternidade como considerar-nos “importantes”, “onipotentes”?

Eu tenho um critério pessoal para notar quem já presenciou o mistério. Quem já presenciou o mistério brinca com ele. Sim, brinca, tem uma postura leve, pois o mistério é em si tão complexo, tão avassalador em sua transcendência que a única forma de lidar com ele é de uma forma leve, tranquila, para apaziguar o assombro que a enormidade da questão nos causa.

Já quem nunca presenciou o mistério, nunca se sensibilizou a ele, precisa de ares, de caras e bocas, de aparências, precisa “fazer” mistério para substituir a ausência do verdadeiro contato com a Eternidade.

São essas pessoas que se arrogam títulos e posições, conhecimentos que dizem secretos e ares mil a protegê-las de que percebam sua ignorância. Temos que tomar muito cuidado quando vamos avaliar as antigas culturas pagãs pois muito de sua história foi terrivelmente deturpada.

Os Incas e Astecas, por exemplo, eram povos conquistadores, como os Romanos. Eram imitadores, copiaram os ritos e a magia dos povos conquistados mas copiaram a forma sem entender a essência. Eles invadiram outros povos, escravizaram e deturparam os sagrados ritos e conhecimentos para seus próprios fins.

É um equívoco acreditar que os Incas construíram lugares como Machu Pichu. Outros povos, como os Aymarás, construíram tais lugares para eles, Incas, aliás, como já disse, Inca é a elite governante do império. Chamar de Inca a complexa cultura que se desenvolveu naquela área dos Andes é como chamar todo o povo egípcio de faraós.

Gurdjieff tem uma abordagem muito interessante desse processo. Ele diz que quando duas pessoas que estão no caminho do trabalho sobre si mesmo se encontram elas primeiro conversam e se observam longamente para descobrir quem entre as duas é a mais desperta. Esta tomará o papel de guia, ou seja alguém que pode auxiliar o despertar. Mas o aprendizado não é nunca uma rua de mão única, há sempre troca e tal troca é rica. Acontece que o ser humano está doente. Entre outras coisas, perdeu a capacidade de tomar decisões.

E aí entra a confusão quando se acredita que um (a) mestre (a) vai ser aquela pessoa que tomará todas as decisões morais e intelectuais pelo aprendiz, vai dizer o que ele deve e não deve fazer. Muito pelo contrário. Os (as) mestres (as) da arte que tive a sorte de conhecer agem de forma oposta. Criam ou te expõe a situações onde você terá que por em prática tudo o que te ensinaram e “somem” enquanto dura a prova, justamente para que Vc aprenda a ser autônomo, a tomar suas próprias decisões morais e intelectuais por si.

Pois é esse o sentido de educar: Ajudar o ser a desabrochar, a revelar seu interior. A escola tradicional nos bitolou em decorar fórmulas e regras, chegar no horário certo e obedecer o professor e muitos levam esses vícios para a vida cotidiana e pior, para o mundo mágico acreditando que magia é também decorar fórmulas, obedecer formalidades e ficar submisso a vontade de outrem.

A questão do caminho ser solitário é outro ponto que questiono. Em certo sentido ele é solitário, tudo importante na vida é solitário. Nascemos sozinhos, morremos sozinhos e se nestes dois momentos mais significativos estamos sós o que não dizer em outros. Mas a existência de grupos de trabalho é possível e até mesmo recomendável. Pois trabalhar sozinho pode ser uma boa desculpa para justamente não se trabalhar, pois nada mais difícil que o convívio humano.

É muito fácil chegar em resoluções irreais quando se está só, em acreditar que atingimos tal ou qual estado, mas quando em contato com outros que nos colocam em xeque constantemente é outra coisa. Um grupo deve ser harmônico e não surge da noite para o dia. Um grupo é formado por laços de respeito e afinidade e é no buscar desses laços que muito se aprende. Todas as escolas iniciáticas consideram que o ser humano no seu estado “normal” está dormindo, robotizado, num sono hipnótico que precisa acordar. Aprender rituais não é acordar, pelo contrário, você pode dormir mais ainda sonhando com os rituais. Acordar é estar presente aqui e agora, consciente e com foco. E nisso um grupo pode te ajudar a não deixar que vc faça joguinhos, que se iluda. É muito difícil o convívio humano, é uma verdadeira arte.

E vejo aí o fato que muitas pessoas preferem o caminho solitário, para evitar o desgaste do convívio, mas aí fogem também do aprendizado. Ficar em torres de marfins, isolado de tudo e todos é fácil, mas qual o valor disso?

Só no contato efetivo com a realidade e com outras pessoas podemos ter certeza que nosso aprendizado é real e não apenas mais uma das muitas ilusões que desenvolvemos durante a vida. Para essa questão do grupo repito a frase de um mestre que muito me ensinou:

Um grupo é como bambus crescendo, crescem juntos mas cada um tem sua raiz.

Nuvem que passafilipeta

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reprog amor