Richard Bach

imageO4GRichard Bach

(Oak Park, EUA, 1936 – )

Richard Bach é autor de algumas das obras mais inspiradas que o espírito humano produziu nos últimos cinquenta anos. 

Nasceu nos Estados Unidos da América, em Oak Park,  no ano de 1936. 

Filho de Roland Robert and Ruth Helen (Shaw) Bach e tataraneto do grande compositor J. S. Bach. 

image188Teve uma infância e uma juventude normal, exatamente igual à de todo americano de classe média, formando-se pela Califórnia State University, em Long Beach.

 Aviação sempre foi o seu negócio. Foi instrutor de voo técnico, piloto tático, dublê cinematográfico…

 Desde jovem, sempre teve em mente escrever um livro que falasse sobre pássaros que ultrapassavam os seus próprios limites. Foi assim que nasceu o seu livro mais famoso, Fernão Capelo Gaivota (Jonathan Livingston Seagull), que anos mais tarde tornou-se um filme simplesmente maravilhoso (1973).

 Todos os seus  pensamentos e atos levam, de uma forma lógica, aos temas desenvolvidos neste livro a ao prazer que ele sente ao voar.

imagePFS“Voar é minha religião”, diz Richard Bach, “é a maneira que tenho de descobrir a verdade”.

 “Fossem quais fossem as tristezas, as alegrias ou as fantasias que me ocorriam enquanto eu voava, tornaram-se artigos e histórias em vez de páginas em um jornal. Quando comprei minha primeira máquina de escrever, fiz a promessa de jamais escrever algo que não fizesse diferença em minha vida, e tenho chegado muito perto do cumprimento desta promessa.”

 Muitos foram os livros de Richard que inspiraram parte do trabalho do Imagick. Entre eles, um muito forte é ‘Ilusões ou As Aventuras de um Messias Indeciso’. Como diria o antigo ministro: “imperdível”. Baseia-se na seguinte ideia: …E se aparecesse alguém que pudesse ensinar como funciona o mundo e como controlá-lo. E se um Jesus ou um Sidarta, voltasse com o poder sobre as ilusões do mundo, porque conhecia a verdadeira realidade. E se, um dia, você andando por aí, nas quebradas da vida, cruzasse com este ser…

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LONGE É UM LUGAR QUE NÃO EXISTE  

Livro de :
Richard Bach
  

Há muito tempo, Rae Hansen,  uma menina às vésperas de seus cinco anos,  convida o amigo Richard Bach para sua festa de aniversário. Confiante, ela o espera, apesar de saber que  sua casa ficava além dos desertos,  tempestades e montanhas…
Como Richard Bach chega até lá e o presente que ele lhe dá são narrados nessa história mágica. Este clássico continua a inspirar as relações de amizade que não mais dependem de tempo nem espaço. Quem já voou nas asas da gaivota encontrará aqui muitos pensamentos para compartilhar “até que finalmente acabará descobrindo que não precisa do anel nem de pássaro para voar sozinho acima da quietude das nuvens” e “que as únicas coisas que importam são as feitas de verdade e alegria”.
 
Aqui está o  resumo dessa história…
  
 “- Rae! Obrigado pôr me convidar para a sua festa de aniversário!”
Sua casa fica a mil quilômetros da minha e viajo apenas pela melhor das razões. E uma festa para Rae é a melhor e estou ansioso para estar ao seu lado.
Começo a viagem no coração do Beija-Flor, que há tanto tempo você e eu conhecemos. Ele se mostrou amigo como sempre, mas ficou espantado quando lhe disse que a pequena Rae estava crescendo e que eu estava indo à sua festa de aniversário, levando um presente.
Voamos algum tempo em silêncio, até que finalmente ele disse:
– Não entendo muito bem o que você falou, mas o que menos entendo é o fato de estar indo a uma festa.
– Claro que estou indo à festa. – respondi. – O que há de tão difícil de se compreender nisso?
Ele ficou calado e só voltou a falar quando chegamos à casa da coruja: 
– Podem os quilômetros separar-nos realmente os amigos? Se quer estar com Rae, já não está lá?

– A pequena Rae está crescendo e estou indo à sua festa de aniversário com um presente. – falei para a coruja. Parecia estranho dizer “indo” depois da conversa com Beija-Flor, mas falei assim mesmo para que Coruja compreendesse.
Ela voou em silêncio pôr um longo tempo.
Era um silêncio amistoso, mas Coruja disse ao me deixar em segurança na casa da águia: 
– Não entendo muito bem o que você falou, mas o que menos entendo é ter chamado sua amiga de pequena.
– Claro que ela é pequena, porque não é crescida – respondi. – O que há de tão difícil de se compreender nisso?
Coruja fitou-me com os olhos profundos, cor de âmbar, sorriu e disse: 
– Pense a respeito.

– A pequena Rae está crescendo e estou indo à sua festa de aniversário com um presente. – falei para Águia. Parecia estranho falar agora “indo” e “pequena”, depois das conversas com Beija-Flor e Coruja, mas falei assim mesmo para que Águia compreendesse.
Voamos juntos sobre as montanhas, subindo nos ventos das montanhas.
E Águia finalmente disse : 
– Não entendo muito bem o que você falou, mas o que menos entendo é essa palavra aniversário.
– Claro que é aniversário. – respondi. – Vamos comemorar a hora que Rae começou e antes da qual ela não era. O que há de tão difícil de se compreender nisso?
Águia curvou as asas para a descida e foi pousar suavemente sobre a areia do deserto. 
– Um tempo antes de Rae começar? Não acha que é mais a vida de Rae que começou antes que o tempo existisse?

– A pequena Rae está crescendo e estou indo à sua festa de aniversário com um presente. – falei para Gavião. Parecia estranho falar “indo”, “pequena” e “aniversário”, depois das conversas com Beija-Flor, Coruja e Águia, mas falei assim mesmo para que Gavião compreendesse.
O deserto se estendia interminavelmente lá embaixo e ele finalmente disse: 
– Não entendo muito bem o que você falou, mas o que menos entendo é crescendo.
– Claro que ela está crescendo – respondi. – Rae está mais perto de ser adulta, mais longe de ser criança. O que há de tão difícil de se compreender nisso?
Gavião pousou finalmente numa praia deserta. 
– Mais um ano longe de ser criança? Isso não me parece ser o mesmo que crescer.
E Gavião alçou voo e foi embora. 

Eu conhecia o bom senso de Gaivota. Voamos juntos, pensei com muito cuidado e escolhi as palavras, a fim de que, ao falar, Gaivota soubesse que eu estava aprendendo:
– Gaivota, por que está me levando a voar para ver Rae, quando na verdade sabe que estou com ela?
Gaivota sobrevoou o mar, as colinas, as ruas e pousou suavemente em seu telhado e disse: 
– Porque o importante é você saber a verdade. Até saber, até realmente compreender, só pode demonstrá-la em coisas menores, com ajuda externa, de máquinas e pessoas e pássaros. Mas deve se lembrar sempre que não saber não impede a verdade de ser verdadeira.
E Gaivota se foi. 

E agora é chegado o momento de abrir o seu presente. Presentes de lata e vidro amassam e quebram num dia, somem para sempre. Mas eu tenho um presente melhor para você.
É um anel para você usar. Cintila com uma luz especial e não pode ser tirado pôr ninguém, não pode ser destruído. Somente você, no mundo inteiro, pode ver o anel que lhe dou hoje, como fui o único que pude vê-lo quando era meu.
O anel lhe dá um novo poder. Usando-o, você pode alçar voo nas asas de todos os pássaros que voam.
Pode ver através dos olhos dourados deles, pode tocar o vento que passa pôr suas penas macias, pode conhecer a alegria de se elevar muito acima do mundo e suas preocupações. Pode permanecer no céu pôr tanto tempo quanto quiser, através da noite, pelo descer do sol; e quando sentir vontade de outra vez descer, suas perguntas terão respostas, suas preocupações terão acabado.
Como tudo o que não pode ser tocado com a mão nem visto com o olho, seu presente se torna mais forte à medida que o usa.
A princípio, pode usá-lo apenas quando está fora de casa, contemplando o pássaro com quem você voa.
Mais tarde, porém, se usá-lo bem, vai funcionar com pássaros que não pode ver, até que finalmente acabará descobrindo que não precisa do anel nem de pássaro para voar sozinho acima da quietude das nuvens.
E quando esse dia chegar, deve dar seu presente a alguém que saiba que irá usá-lo bem, alguém que possa aprender que as coisas que importam são as feitas de verdade e alegria, não as de lata e vidro.

Rae, este é o último dia especial de comemoração a cada ano que estarei com você, tendo aprendido com os nossos amigos, os pássaros.
Não posso ir ao seu encontro porque já estou com você.
Você não é pequena porque já é crescida, brincando entre suas vidas como todos fazemos, pelo prazer de viver.
Você não tem aniversário porque sempre viveu; nunca jamais haverá de morrer. Não é a filha das pessoas a quem chama de mãe e pai, mas a companheira de aventuras delas na jornada maravilhosa para compreender as coisas que são.
Cada presente de um amigo é um desejo de felicidade.
É o caso do anel.

Voe livre e feliz além de aniversários e através do sempre.
 
Haveremos de nos encontrar outra vez, sempre que desejarmos, no meio da única comemoração que não pode jamais terminar.

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“Entrevista com Richard Bach”

 

Quem imaginaria que o maior sucesso do escritor,  Fernão Capelo Gaivota, publicado em 1970,  foi recusado por todas as editoras de Nova York? 

Para ele, entretanto, obstáculos como esse,  que surgem quando buscamos realizar aquilo que amamos,  fazem parte do aprendizado.

O que importa, segundo ele,  é seguir o que o coração está pedindo,  pois a vida se encarregará de nos dar de presente  pequenas coincidências que nos ajudarão  a perseverar em nossa caminhada.

 

Débora Lerrer – Voar está presente na maioria dos seus livros. O que voar significa para você? 

Bach – Para mim, é uma expressão do que nós somos. Voar é um passo para expressar o espírito que todos nós sentimos e que é ilimitado. O avião é um meio de descobrir este espírito que está em mim e que não quer estar amarrado pela gravidade ou pelos limites. Somos expressões puras e ilimitadas de vida e de amor. A mágica do avião é um espelho da mágica do nosso espírito. Para voar qualquer avião, você deve acreditar em algo que não vê, na aerodinâmica. Isto é um grande princípio espiritual. Como isso voa, se é mais pesado que o ar? Graças à aerodinâmica. É só nos movermos a 15 milhas por hora e esta mágica acontece, este princípio nos levanta no ar. E quanto mais nós aprendemos sobre aerodinâmica, mais liberdade, vôo e poder nós temos. E quando aprendemos sobre nós mesmos e sobre o que está nos guiando, seguindo aquilo o que realmente amamos, um princípio irá nos sustentar. 

Débora Lerrer – Que princípio seria esse? 

Bach – Nós sempre vivenciamos coincidências em nossas vidas. Há um princípio nestas coincidências. Se nós estamos fazendo o que nós amamos, tentando dar o máximo de nós mesmos para dar de presente para o mundo aquilo que nós aprendemos, aquele princípio pode nos ajudar. Fernão Capelo Gaivota foi rejeitado por todos os grandes editores de Nova York. Mas a coincidência veio para mim na forma de duas pequenas correspondências que chegaram no mesmo dia. Em uma delas, havia meu manuscrito de Fernão Capelo Gaivota e uma nota do meu agente dizendo: “Richard, eu gosto da sua história e eu sei que você ama seu pequeno Fernão, mas ninguém em Manhattan vai imprimir esta história. Vamos deixa-la de lado”. A outra correspondência era de uma editora de Nova York e dizia “Richard Bach, eu li alguns de seus livros e os achei interessante. Por acaso você tem algum manuscrito que não esteja comprometido com outra editora?”. E, claro, eu tinha. Essa carta era de um editor diferente de uma editora que já havia rejeitado a história. Contei que ela já havia sido rejeitada, mas a moça foi cobrar esta decisão. De tanto que insistiu, a editora decidiu publicar, mas deram um orçamento bem baixo. Foram impressas somente 5.000 cópias. Depois que a história foi vendida, a editora pediu para eu encontrar um jeito de ilustrar a história. Então o princípio da coincidência veio novamente. Tenho um grande amigo que é fotógrafo e eu costumava dormir em seu estúdio quando ia para Nova York. Contei a ele que precisava ilustrar o livro e ele perguntou se poderia ser com fotografias. Eu disse que ficaria bem, mas que tínhamos um orçamento muito pequeno e não daria para contratá-lo para fotografar gaivotas. Ele não disse nada, só sorriu, pegou uma caixa e trouxe para eu abrir. Dentro havia 36 fotografias, todas de gaivotas. Dois anos antes, quando ele estudava fotografia, seu instrutor, que gostava do trabalho dele, lhe deu recursos para que tirasse as fotografias que quisesse, onde bem entendesse. Ele sentiu vontade de tirar fotografias de gaivotas. Nunca as tinha usado ou publicado. Estavam guardadas naquela caixa até que eu cheguei perguntando como é que eu ia ilustrar o meu livro. Foi inacreditável. 

Débora Lerrer – Foi seu maior sucesso comercial, não foi? 

Bach – Fernão Capelo Gaivota foi o meu livro que vendeu o maior número de cópias. Foi traduzido em 45 línguas e é para mim um livro de sucesso. Mas a definição de sucesso para um escritor é quando ele alcança a última página de seu manuscrito, vivencia todo o livro em torno da última frase que escreve e sente que gosta. Naquele ponto o livro é um sucesso. Se vai ou não vender, é uma história completamente diferente, é sucesso comercial. Aquele princípio que eu te falei é atraído por quem leva seu trabalho adiante, por quem faz aquilo que realmente adora. Uma idéia para ser expressa precisa de algumas pessoas. Fernão Capelo Gaivota precisou de mim, porque havia a idéia de que alguma coisa poderia ser dita sobre o espírito humano através da gaivota. Então o princípio disse: pegue esta pessoa que adora voar, que adora gaivotas e lhe dê esta história. 

Débora Lerrer – O ponto é fazer o que você quer fazer, o que o fundo da sua alma deseja? 

Bach – Não importa o que seja. Pode ser negócio, publicidade, estrelas, qualquer coisa que nos puxe. Nós pegamos a dádiva que é o nosso amor e aplicamos para qualquer lado, e damos este presente para os outros que nos agradecem comprando nossos livros, nossos produtos, indo ao cinema. Temos que acreditar no que amamos. Somos levados. Mas também temos a escolha de virar as costas para isso. 

Débora Lerrer – Como você caracterizaria teus livros? 

Bach – Se há uma linha que corre por todos os meus livros é a da descoberta daquilo que nós realmente somos, dos dons e poderes que nós temos na ponta dos nossos dedos. Todos nós sentimos isso quando crianças. Todo mundo se sente de alguma maneira especial, mas assim que nós aprendemos a falar e crescemos em sociedade, muito frequentemente nós somos rebaixados. Então nos dizem que há bilhões de pessoas no planeta, que não somos nada de especial. Então muitas pessoas jogam fora aquela pequena chama. E talvez aquela chama seja diminuída e só sobre uma faísca. Mas nós podemos em qualquer tempo da nossa vida lembrar dela, nos permitindo fazer o que nós sempre quisemos fazer. O que cabe a nós fazer não é o que as outras pessoas queriam que nós fizéssemos. É o que nós sentimos que sempre amamos. Acho que esta é a chave para viver uma vida alegre, mas não é uma vida fácil. 

 

Texto da Jornalista: Débora Lerrer
Entrevista concedida a Planeta Web