Ignácio da Silva Telles

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(São Paulo,  7 de abril de 1916 – )

 “Acordar!… fazer cair os sete véus que encobrem nossos sentidos, para que os nossos olhos se abram como se pela primeira vez na vida estivessem se abrindo…”

Este é o apelo emocionado do mestre aos seus discípulos, chamando-os com insistência para um mundo onde a Beleza é a mensageira da Divina Consciência Cósmicka…Antes de prosseguirmos, queremos ressaltar que o Instituto de Pesquisas Psíquicas Imagick tem a filosofia humanista, ensinada pelo Mestre Ignácio da Silva Telles, como um dos pilares fundamentais de seu sistema mágicko.

Ele nasceu em São Paulo, no dia 7 de abril de 1916, filho de Goffredo Teixeira da Silva Telles e de Carolina Penteado da Silva Telles.

Formou-se em Filosofia na Faculdade de Filosofia de São Bento em 1938, e em Direito, na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, em 1939.

Dedicou toda sua vida exclusivamente ao ensino, iniciando sua carreira em 1936.

Foi Professor Assistente da cadeira de Psicologia, Lógica e Estética da Faculdade de Ciências e Letras Sedes Sapientiae – PUC São Paulo.

Foi Professor convidado pela Escola Politécnica – USP por quinze anos e também pela Escola de Jornalismo Cásper Líbero e pela Universidade Mackenzie.

Em 1964 tornou-se Livre Docente de Teoria Geral do Estado na Faculdade de Direito da USP, onde lecionou até 1984.

Além dessas atividades acadêmicas, ministrou inúmeros cursos livres em Instituições como o Museu de Arte de São Paulo, a Associação Palas Athena, assim como, durante oito anos, deu cursos pelo Instituto Brasileiro de Filosofia na Biblioteca Mário de Andrade. Esses cursos eram, preferencialmente, sobre Filosofia da História, Mitologia Grega, Simbologia das Religiões e Religiões Comparadas.

Na televisão, em 1961, ministrou um curso de quatro meses na TV Record sobre “Regimes Políticos da Atualidade”, e em 1967-8 teve um programa na TV Gazeta sobre “Atualidades Culturais e Políticas do Mundo”, pelo qual recebeu o Prêmio de Melhor Programa Cultural do Ano.

Participa de várias entidades culturais, sendo membro titular e fundador do “Instituto Brasileiro de Filosofia”, do “Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo” e do “Ateneu Paulista de História”. Pertence à “Ordem dos Cavaleiros de São Paulo”, à “União Brasileira de Escritores” e à “Ordem dos Advogados do Brasil”.

Criou, em 1967, o Centro de Estudos Schola, cujos objetivos estavam ligados ao desenvolvimento intelectual e espiritual do Homem. Sob sua direção, Schola ofereceu um grande número de cursos livres na área da Cultura Humanística, convidando para tal inúmeros professores universitários nacionais e estrangeiros.

O “espírito” da Schola, que sempre esteve presente em seus cursos, nas centenas de palestras e conferências que proferiu e em toda sua atividade acadêmica, concretizou-se, de maneira mais permanente, em seus escritos e em seus livros.

Seus principais trabalhos publicados são:
– “Considerações sobre a História dos Municípios Brasileiros” – 1958.
– “O Império Português, Vitória do Espírito”.
– “Pensamento Político de Santo Agostinho”.
– “Conceito de Democracia no Mundo Contemporâneo”.
– “A Experiência da Democracia Liberal”.
– “Que Estais no Céu…”
– “Páginas de uma Vida”.
– “Andanças pelo Sertão Grande”.
– “Vivência e Reflexão”.
– “Forjadores Espirituais da História”.

Ministrou cursos que ficaram famosos, como:
– “Filosofia da História”
– “Revolucionários do Espírito”.
– “Mitologia”.
– “Cosmogonia””.
– “Cidades Sagradas”.
– “O Espírito da Terra”.
– “A Arte de Tornar-se Humano”.
– “O Segredo das Catedrais Góticas”
– “Religiões Comparadas”
– “Simbologia das Religiões”

Em 1991 foi eleito Membro da Academia Paulista de Letras para a cadeira de número cinco, cujo patrono é Eduardo Prado. Foi recepcionado pelo Acadêmico e Poeta Paulo Bomfim.

Casou-se em 1937 com Helena Marina Penteado de Rezende, filha do Professor e Diretor da Faculdade de Direito de São Francisco – USP, Dr. Gabriel de Rezende Filho, e de Marina Penteado de Rezende; tem quatro filhos, onze netos e dez bisnetos.

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Os Símbolos

por Ignácio da Silva Telles

Os místicos de qualquer parte do mundo e a qualquer tempo, formados por culturas as mais dispares e por religiões aparentemente até contraditórias, vivem todos à busca da verdade que se encontra atrás da aparência das coisas.

No fundo, é nesta busca que consiste o Esoterismo. Por essa razão, facilmente se compreende que um mesmo espírito inspira a mensagem esotérica das civilizações as mais diversas, desde a milenar civilização chinesa ainda viva nos dias atuais, misteriosamente, como a hindu, em plena fase de juventude, até a dos malas e a dos astecas, e todas as demais.

Há como que uma cordilheira de pensamento varando os tempos, sobre a qual se estende a mesma linha de espiritualidade, iluminando os píncaros. É um “universalismo espiritual” na expressão do Rabino André Zaoni. Tão antigo e sempre novo. Pensamento alado que não se capta, porque uma vez captado, deixa de ser; pensamento alado à espera de ser surpreendido em pleno voo, voando nós com ele, o quanto pudermos, se pudermos.

Quem tem olhos, que veja; quem tem ouvidos, que ouça; quem tem asas, que voe. O místico jamais é uma pessoa aquietada. Está sempre de partida. Mesmo vivendo aparentemente em total quietude, pois que as contingências do mundo prosaico mal o perturbam, estará sempre de partida em demanda da verdade que se esconde no mais profundo de cada um de nós. Dai, a quantidade de histórias, plenas de realidade, daqueles que partem em busca da Terra Prometida, ou em demanda do Santo Graal, ou em busca do Tosão de Ouro, ou em busca do encantado reino do Prestes João. Na mesma linha de simbologia, as histórias daqueles heróis que entregam sua vida na procura da Princesa Distante, Ia Princesse Loyntaine dos trovadores medievais.3s

Os místicos procuram o nomenon, atrás do fenômeno. Em suma, procuram surpreender, nem que seja num relance, a participação do Belo, atrás e além das coisas belas. Tudo é sombra de alguma realidade mais alta, que por sua vez é sombra de outra realidade ainda mais alta, sombra de sombra de sombra… Mas tudo aponta na direção da verdade maior. Portanto, para eles, todas as coisas do mundo são símbolos. Se a realidade mais alta não se manifesta, nem por vislumbre, a culpa reside nos olhos obumbrados do espectador, olhos encobertos de sete véus. Tirar as coisas da sombra é o anseio de todo místico. Tirar da sombra é des-(I)umbrar. Qualquer objeto, por mais trivial, seja físico ou mental, se for surpreendido fora da sombra, transfigura-se num ser des-lumbrante. 0 buscador da verdade, nesse caso, mergulha em deslumbramento, nem que seja por alguns rápidos instantes, mas instantes que servirão para iluminar as trilheiras de sua vida.

Entretanto, para os racionalistas, a única verdadeira realidade é a informação que os sentidos percebem e que a razão, baseada nessa informação, consegue explicar. Agarram-se, como se fosse uma questão de honra para o ser humano intelectualizado, agarramse ao plano do fenomenal. Completamente cegos e surdos, teimam em ficar nesse rasteiro do mundo.

Dificilmente hão de entender, esses melancólicos adoradores de deuses nemródicos, que símbolos, tanto em números, sons, formas, cores, perfumes, palavras, pedras, flores, ventos, ondas, movimentos, madrugadas, e tanto e tudo mais, não são criações aleatórias, às quais se pretenda, por convenção, atribuir alguma significação arbitrária. Enquanto racionalistas, jamais entenderão que o símbolo se pode compreender mas jamais explicar; que o símbolo des-vela a coisa na concreção de seu ser, isto é, des-cobre o sentido mais profundo e verdadeiro das coisas. Jamais entenderão, enquanto racionalistas, que tudo que existe no mundo é símbolo, tudo é sombra de alguma realidade mais verdadeira.

A quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, todo símbolo transfigura a percepção da coisa mais prosaica numa surpreendente e luminosa aventura do espírito.

Os místicos, que formam uma única viva comunidade no mundo inteiro, devem dizer em suas orações, de uma forma ou de outra: “Ó Senhor, ajude-nos a fazer cair os sete véus que encobrem nossos sentidos, para que nossos olhos se abram como se, pela primeira vez na vida, estivessem se abrindo” – e talvez então possamos exclamar como Jacó naquela sua madrugada “mas olha que coisa extraordinária! O Senhor está neste lugar e eu não sabia!

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À GUISA DE UM PREFÁCIOMas como poderei jamais escrever um prefácio ao livro de Paulo Bomfim? Como poderei, com palavras simples e banais, dizer alguma coisa que sirva de introdução à sua poesia? Essa poesia, entretanto, também foi construída com palavras − mas é que, na Poesia de Paulo Bomfim, elas foram de tal maneira enleadas umas nas outras que, ao serem pronunciadas, eclodem, e eclodidas permanecem em estado de encantamento. Assim encantadas, nenhum dicionário jamais dará sua significação. Como falar sobre elas?

A poesia de Paulo Bomfim nos apanha no chão, nos eleva, nos envolve, desperta em nós olhos que nunca sonhamos que tivéssemos, e nos aponta na direção de realidades, não de sonhos, não de quimeras ou idéias abstratas, mas de realidades, daquelas mais verdadeiras, daquelas que habitam além, muito além do pensável, e portanto muito além de todo o dizível, daquelas realidades que habitam fora da “caverna de Platão”. Assim como os alquimistas antigos, a poesia de Paulo Bomfim nos transporta para além do “Fogo”, do “Ar”, da “Água” e da “Terra”, para a quinta-essência que ilumina nosso entendimento sobre as coisas da vida e do mundo.

Em certos momentos que se derramam por toda sua obra, sua poesia é como se fosse mais uma anunciadora da participação do Belo Absoluto que reside na alma de tudo, desde o cintilar de uma estrela até a menor partícula da poeira do mundo, manifestação do Ser inscrita na raiz de tudo.

A poesia de Paulo Bomfim é toda paixão. Os imortais menestréis da Aquitânia, em idos tempos, nos séculos XI e XII, já nos ensinavam, como é sabido, que a paixão, assim como eles a entendiam, resulta de um amor por um bem sempre inatingível. Sento inatingível, é portanto amor com sofrimento; essa paixão, em verdade, caracteriza a mais forte marca do ser humano na sua claudicante caminhada pelas veredas da terra.

É sempre a mesma velha história dos “Fideles d’Amour”, a deliberada vontade de amor cada vez com mais ardor o bem cada vez mais alto; é o amor pela “Princesse Lointaine”, a Princesa distante, sempre inatingível. Ora, a poesia de Paulo Bomfim, acima de tudo, apresenta-se exatamente como um transbordamento de amor por um bem sempre cada vez mais alto. Ele claramente o confessa ao dizer:

“E o finito crescer de uma infinita
Vontade de alcançar toda distância”.

Às vezes pode acontecer que no longo arrastar de nossa existência, prisioneiros de vãs e enganadoras cintilações do século, deixamos aos poucos bruxulear nossa infância e, com ela, a santa loucura que nos faz abrir os olhos. Assim com o jardineiro que se habitua com o perfume de certas flores perde a capacidade de o sentir, assim também podemos nos habituar com os encantamentos do mundo e deles só nos fica o mais leve, a mais vaga das lembranças.

“Dormi, e estive sepultado no sono”, cantava o Psalmista. Assim também às vezes nos encontramos sepultados, pois tudo que à nossa volta foi criado para servir a nossa vida, desprezamos. Desprezamos as madrugadas, desprezamos o canto das ondas do mar, desprezamos a brisa e os grandes ventos, os perfumes dos campos e o silêncio das florestas; chegamos a desprezar o som mágico das palavras; desprezamos a mensagem das constelações e não sabemos mais nos dirigir por elas, como os Magos Antigos, para a Luz do Primeiro Dia; e desprezamos também as grandes tristezas e as grandes alegrias, esses augustos visitantes de nossa alma “que nunca nos abandonam sem nos deixar enriquecidos de secretos tesouros” (Maeterlinck). Desprezamos a magia do mundo, e silenciaram dentro de nós as insondáveis forças do coração. Na semiconsciência do que nos acontece e na tresloucada esperança de recuperar as faculdades adormecidas, recorremos a analistas do infinito, a esses alardeam por aí com grandes palavras sonoras, iluminados somente pelas luzes de sua própria razão, esses que afirmam que nada existe tão longe de nós que escape ao alcance da inteligência raciocinante. Esses, depois de lançarem a claridade do pensamento sobre as sombras que nos cercam e nos habitam, ao finalizarem o espetáculo de brilhantes raciocínios, se quedam, mudos e contrafeitos, “com um pé apontado para as Antilhas e outro para a melancolia” (Supervielle).

De súbito, somos despertados pela poesia de Paulo Bomfim. E eis que, acordados, desvendam-se aos nossos olhos, e não somente aos nossos olhos, mas também ao nosso ser inteiro, a mensagem que brota dos inquietos planos de nossa alma, para responder com infinito amor ao apelo do mundo. Paulo Bomfim já nos havia prevenido. Ele diz:

“Na esquina de um poema hás de encontrar
a aventura tão cedo pressentida”

“E livre tornarás a ser o canto.”

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No mormaço dos tempos atuais, abatidos tempos ainda de Kali Yuga, a poesia de Paulo Bomfim nos vem como um sopro de espírito, um lampejo de madrugada reacendendo fogos quase extintos.

Para quem tem ouvidos para ouvir, os seus poemas são a confirmação de que a Palavra Perdida repousa logo ali adiante, à nossa espera.

Ignácio da Silva Telles

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Oração

Oração que foi lida na missa de sétimo dia do professor Ignácio da Silva Teles, que o próprio professor compôs para que acontecesse como aconteceu, após o seu falecimento.


Ajuda-nos, Senhor

1. Senhor, ajuda-nos a manter sempre o coração puro e nos ajuda também a ir cultivando, pela longa noite escura, as virtudes da coragem, da paciência e da bondade.

2. Desperta em nós, Senhor, todos os anseios do belo e nos ajuda a cultivá-Ios dia-a-dia.

3. Senhor, ajuda-nos a abrir os olhos e a surpreender o deslumbramento do mundo e, se possível, que nos seja dada a Bênção de vislumbrar, além das relatividades do espaço e do tempo e, portanto, além do pensável, a realidade transcendente do Número, da Forma, da Lei e da Música.

4. Ajuda-nos Senhor a contemplar todos os dias dentro de nós mesmos o nascer do Sol para, em seguida, transmitir aos outros a alegria da madrugada.

5. Irmãos somos de tudo que existe na Creação, pois filhos somos do mesmo Pai. Ajuda-nos, Senhor, a fazer com que esta ideia, quase sempre adormecida, possa de repente despertar e, partindo do cérebro, inflamar o coração.

6. Ajuda-nos, Senhor, a desvendar nosso irmão mais próximo, o ser humano, em meio das coisas todas da Creação, no número infinito de infinitos universos, tanto nos dos planos mergulhados no espaço e no tempo como nos de tantos e tantos outros planos, fora do tempo e fora do espaço. Ajuda-nos a ver esse nosso irmão, onde estiver, sobretudo este aqui na Terra a nosso lado. Ajuda-nos a vê-Io, Senhor, com os olhos da inteligência, com os olhos do coração e com os olhos das sensibilidades que nos últimos anos vêm mansamente aflorando na consciência de nossa sofrida humanidade. Ajuda-nos, para que possamos amá-Io com todo o alento de nossa alma.

7. Incendiado vive nosso coração diante do mistério da existência do mundo, e ainda mais incendiado ele vive diante do mistério de nossa consciência. Ajuda-nos Senhor, a converter esse pasmo, esse susto de nossa alma, numa fonte perene de amor.

8. Senhor, em qualquer momento de nossa vida, mesmo sem o merecer, ajuda-nos a receber de Ti um bafejo da Sabedoria.

9 … e além, muito além do que foi pensado e dito nesta oração, ajuda-nos Senhor, ajuda-nos a Te amar acima de tudo.

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