O Sono Nosso de Cada Dia

As longas noites à procura do bom repouso
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lower-blood-sugar-with-sleep-af[1]Os ciclos e subciclos que regem a vida humana são vitais para nossa existência e quebrar esse ritmo é perigoso, já que causa efeitos que ainda desconhecemos. Sabe se, no entanto, que muitos problemas físicos comprovam que existe algo de cíclico no organismo humano. São sintomas que podem surgir a cada vinte e quatro horas, outros a cada sete dias, de ano em ano ou até mesmo de dez em dez anos. Existem ainda epiléticos que têm ataques a cada duas semanas.

Os estudos sobre o sono foram os primeiros a assinalar que os subciclos parecem influenciar a eficiência e a energia dos nossos corpos durante o dia. 
 

 

 

Mas o sono é um caso muito especial e cheio de controvérsias: para uns é uma obrigação, ou mesmo um inferno, enquanto para outros, é uma bênção. Parece óbvio que o corpo e o cérebro necessitam de um descanso.

Outro lado importante deste estudo é o “ritual” que provoca o sono. Ele varia de pessoa para pessoa: algumas crianças, por exemplo, chupam o dedo; muitas mulheres fazem cachos no cabelo até adormecerem; outros ficam a contar ovelhas, meditam ou oram; alguns ainda cobrem os olhos, mesmo quando há escuridão total. Muitos só dormem numa determinada posição e olhando apenas numa certa direção. 
 

 

 

Certas pessoas fazem refeições ligeiras na cama, e outras optam por verdadeiras orgias de doces e bombons   uma reminiscência provável dos momentos de ir para a cama quando crianças. Em certos casos, a pessoa só dorme ouvindo música, enquanto outras, exatamente ao contrário, só conseguem adormecer quando há silêncio completo. Muitas têm necessidade de companhia, enquanto outras preferem dormir solitárias; algumas, por sua vez, só conseguem pegar no sono na própria cama. Enfim, a variação desse ritual é quase tão grande quanto o número de pessoas que dormem.

Os cientistas estudam o sono através do eletroencefalograma, que registra as diferentes fases da atividade cerebral enquanto a pessoa está dormindo. Através dessa aparelhagem, foi possível descobrir que o sono progride em ciclos, que se repetem durante seu processo. Assim, logo após nos “arranjarmos” confortavelmente na cama, entramos num estado de relaxamento que é o do ritmo alfa, um estágio entorpecido chamado estágio um.
 

 

 

Se não houver qualquer problema, avançamos mais um pouco e entramos em sono profundo até atingir o estágio quatro, que é o estado conhecido como sono delta, já que as linhas correspondentes no eletroencefalograma são as de ondas delta. A maior parte do sono transcorre nesse estágio. Nesse sentido as velhas estórias sobre a importância das primeiras horas de sono estão realmente corretas, pois nesse estágio o cérebro ainda reage a estímulos, embora não haja uma consciência desperta.

Cerca de uma hora a meia após adormecer, a pessoa volta ao estágio um novamente. Mas, ainda que esse estágio seja um sono leve, dessa vez torna se mais difícil acordar. Como se estivessem vendo um filme, os olhos movem se rapidamente   e isto também é registrado pelo eletroencefalograma.

O que acontece quando se fica dias acordado?
 

 

 

O sono envolve estranhas e contraditórias características no corpo: o pulso e a respiração ficam irregulares, a batida do coração e a pressão do sangue sobem e o consumo de oxigênio aumenta. Alguns dos hormônios estimulantes, como as adrenalinas, que as glândulas colocam no organismo para preparar o corpo para a ação a supri lo da energia necessária para isso, chegam   durante a fase do sono chamada de “paradoxal”   à sua mais alta concentração. Mais ainda: apesar de todos os músculos estarem relaxados, o cérebro e a temperatura sobem e os traços no eletroéncefalograma mostram sinais de intensa concentração.

O ciclo mais profundo   o quarto, chamado estágio delta   repete se quatro ou cinco vezes por noite. Mas cada vez mais a fase onírica torna se maior e os sonhos são mais vívidos. Através de pesquisas, os cientistas descobriram que, quando o cérebro está desperto ou sonhando, reage de uma forma similar a um som   mas quando está dormindo profundamente, a reação é inteiramente diferente.

Nos anos 50 estiveram bastante em moda as chamadas “maratonas de insônia”, brutalmente retratadas no filme A Noite dos Desesperados, com Jane Fonda. 
 

 

A Noite dos Desesperados

 

Essa “gincana” se desenvolvia através de música, de bailes.

Em 1959, nos Estados Unidos, o discotecário Peter Tripp conseguiu a façanha de ficar acordado durante oito dias, sem deixar de fazer o seu programa diário. 
Os resultados dessa experiência estão descritos no livro Sleep and Dreams, de Gay Luce a Julian Segall: “Durante 10 dias após a experiência”, contam os autores, “Tripe mostrou sinais de delírio. Seu mundo visual tornou se mais grotesco. Por exemplo: o tweed que o médico que o examinava trajava no local da experiência surgiu aos olhos de Tripp como se fossem ‘vermes peludos’. Para ele, a enfermeira parecia ‘estar babando’. Era um claro estado de alucinação. De repente, a seus olhos, a gravata de um cientista começou a pular.”
 

 

Peter Tripp

 

Depois de cerca de 124 horas sem dar sequer um cochilo, Peter Tripp, num gesto inesperado, abriu as gavetas da mesa e saiu em pânico pedindo socorro. Para ele, o móvel estava em chamas   o radialista chegou mesmo a pensar que as labaredas teriam sido colocadas ali justamente para testá-lo. Ainda segundo os autores Luce e Segall, depois de 150 horas sem dormir Tripp perdera completamente a identidade e nem mesmo sabia onde estava. Entretanto, apesar de todas essas alucinações, durante as apresentações de seus programas ele não cometia nenhuma gafe ou indiscrição.

Encerrada a “experiência”, foram  necessárias treze horas ininterruptas de sono para que o discotecário voltasse ao normal. Quando despertou, entrou numa crise depressiva que se prolongou por três meses.
 

 

 

Entre os ocultistas, esoteristas e religiosos de modo geral, o sono (mesmo o nosso, de oito horas) era quase um pecado. A virtude estava na vigília. “Desperta, homem, desperta”, dizia Jesus Cristo a seus discípulos. Diz a lenda que Bodhidarma (fundador do budismo zen) certa, vez adormeceu e, de tão revoltado, cortou as próprias pálpebras; o chá oriental que protege contra o sono é a flor que simboliza o desejo dos sábios. Os banhos gelados dos brâmanes, as noites de vigília dos discípulos de Buda e dos ascetas cristãos, os suplícios dos faquires, são outros exemplos.

Mas tudo isso não significa que o homem comum, da cidade, do cotidiano, não deva repousar. Só o conceito é que é relativo. “Quem prefere o sono certamente não tem o que fazer, ou então detesta a humanidade”, afirma Helena Blavatsky em A Chave da Teosofia. O grande cientista Thomas Edison, o inventor da lâmpada elétrica (seria alguma sugestão à vigília?), dormia no máximo quatro horas por dia e detestava essas “horas de torpor”.
 

 

 

Louis Pauwels e Jacques Bergier dedicam um grande capítulo de O Despertar dos Mágicos ao problema do sono a da vigília.

Sob a orientação de George Ivanovitch Gurdjieff (mais tarde relatada por Ouspensky, seu mais fiel discípulo), uma sociedade secreta formada por intelectuais e cientistas procurou exercitar o “estado de vigília” como forma de despertar a consciência superior que , o sono embota {os hindus dizem que o “estar acordado” dos ocidentais é apenas ilusão, é maya, pois na verdade estão dormindo diante da grande obra da criação}. 
 

 

Gurdjieff

 

A hipótese de Gurdjieff era esta:
“A passagem do sono à vigília produz um certo número de modificações no organismo. Por exemplo, a tensão arterial muda, todo o influxo nervoso se modifica. Então, se existe, como pensamos, um estado de supervigília, um estado de consciência superior, esta passagem também deve ser acompanhada de diversas transformações.
O objetivo de Gurdjieff não era passar a vida inteira acordado, claro. Queria simplesmente demonstrar que a vigília pode ser um meio de “despertar o homem superior”:     

Na vigília, o raciocínio e a reflexão filosófica se tornam obrigatórios   daí
o desenvolvimento de uma inteligência e conhecimentos maiores. A psicologia moderna já demonstrou que “a irresistível vontade de dormir” nada mais é do que o horror de raciocinar, raciocinar sem parar.

Alguns, ao invés de preferirem dormir, servem se de um porre, ou de um antidistônico; ambos funcionam.
 

 

 

Pauwels a Bergier chegam a dizer que a próxima “revolução psicológica” ocorrerá a partir do equilíbrio entre sono a vigília. Para se ter uma idéia do radicalismo de Gurdjieff nesse aspecto, basta transcrever este conceito: “Enquanto não despertar sua consciência superior através da vigília, o homem jamais verá o mundo real. Ele dorme. E aquilo que chama de sua ‘consciência lúcida’ não passa de um sono. E um sono muito mais perigoso que o seu sonho de noite, na cama.”

Dos evangelhos aos contos de fada, a palavra de ordem é: “Desperta, desperta, preguiçoso!” A confusão que se faz entre sono e repouso é relativa. Hoje, sabe se que sonos que excedam as oito horas de praxe provocam “cansaço físico”. Além disso, é preciso “aprender a dormir”, a nisso os animais nos dão um exemplo de como se relaxar bem. 
 

 

 

Paramahansa Yogananda (Autobiografia de um logue) garante que o verdadeiro sono repousante é aquele sem sonhos, “pois quem sonha, não importa com o quê, está em atividade”.

Eis o resultado de experiências feitas com ratos. Os animais foram mantidos acordados durante 27 dias e   o que á bem pior   obrigados a manter em movimento uma roda de moinho. O eletroencefalograma constatou que a cada 15 segundos os ratos dormiam uns poucos segundos (mas sem interromper o movimento), despertando e tocando as pás do moinho para a frente, antes que perdessem completamente o equilíbrio a caíssem.

Daqui para a frente, o esoterismo e a ciência vão discordar. Vai haver   como se verá a seguir   um abismo entre o que Luce e Segall constataram no louco radialista norte americano e aquilo que Gurdjieff, Bergier e Pauwels defendem; se, no primeiro caso, Peter Tripp teve incríveis alucinações, na experiência dos iniciados a vigília trouxe a iluminação.
 

 


Yogananda

 

Dizem os cientistas que, entre a quadragésima e a centésima hora insone, a pessoa começa a ter alucinações, delírios e dificuldades de raciocínio. É justamente nessa hora que os aparelhos registraram uma profunda transformação energética no interior do organismo. A transformação da comida em energia é fundamental, pois o ATP (atenosina trifosfato, que transforma em energia o fósforo do organismo, o qual vai abastecer as células cerebrais) vai funcionar como agente catalisador. Depois de quatro horas de sono, o metabolismo que cria o ATP diminui. Justamente neste momento dá se a mudança de comportamento. A insônia (que não era o caso de Gurdjieff a seus discípulos), pode causar “uma mudança drástica na fisiologia do cérebro”. Mas ainda não se sabe se isso representa um processo irreversível.

Ainda não estão esgotadas as teses que explicam a ligação entre as atividades químicas do cérebro e o sono reparador, embora admita se claramente a famosa unidade “corpo mente”. Um sono não reconfortante faz aumentar a temperatura do corpo, e a pulsação torna se mais rápida. Ambos são sinais de excitação.
 

 

 

Fazendo experiências com gatos, pesquisadores detectaram um ingrediente químico cerebral   batizado acetylcholine   que induz ao sono; localizaram ainda uma outra   a nonadrenalina – que causa o despertar. Ficou demonstrado também que o corpo expele uma maior concentração de adrenalina e nonadrenalina depois de algumas noites de insônia. A partir do cérebro, descendo até a coluna vertebral, existem dois sistemas de células que reagem a esses ingredientes químicos.

Mas não é só o “código químico” que induz   ou conduz   ao sono. Emoções negativas (ansiedades, frustrações, rixas) também tiram o sono; as positives, ao contrário, propiciam o sono tranquilo e reparador. Porém, o que mais intriga os cientistas é que a necessidade de dormir não está ligada à resistência física débil. Pessoas fracas fisicamente  há grandes exemplos na ciência  varavam noites em grande alegria, repousando apenas o suficiente a sem nunca ultrapassar o mínimo de sono necessário. Há um dito popular que diz: “Quem está feliz com a vida, bem consigo e com os outros, não vê a hora de despertar; os que não estão assim odeiam o ato de ‘pular da cama’.”
 

 

 

No já citado livro Sleep and Dreams, há uma passagem curiosa. Trata se da tribo dos iagans, da Terra do Fogo, extinta por volta de 1970. Segundo os autores, os membros dessa tribo “mostram um talento para adormecer sem o menor esforço. Têm um sono leve, despertam rápida e facilmente e ficam logo alertas e saudáveis. Mesmo durante o sono, cada membro da tribo parece saber o que se passa ao redor. E o mais interessante: quando acordam, demonstram claramente saber o que aconteceu enquanto dormiam. Curiosamente, esse povo não parece se incomodar com o fato de despertar ou voltar a dormir.”

Resta a grande recomendação, e esta tem a concordância dos cientistas e dos ocultistas: aprender a dormir é tão difícil quanto aprender a desfrutar as horas da vigília.

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BOM SONO…

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